Leia o fragmento a seguir. Foi no Instituto de Letras da UFF, há alguns anos. Convidado, fez lá conferência um ex-Ministro de Angola. O assunto já não me lembra... Em todo caso, o tema é de somenos. Terminada a fala, com as palmas rituais, pôs-se o orador às ordens, para perguntas. À questão das línguas respondeu que, desgraçadamente, a oficial era a do colonizador, acreditando ele que essa anômala situação ainda duraria um século. Assinale a opção que apresenta o tipo de preconceito linguístico a que esse fragmento textual se refere.
- A)O preconceito socioeconômico, ligado ao fato de membros das classes mais pobres, pelo acesso limitado à educação e à cultura, geralmente, dominarem apenas as variedades linguísticas mais informais e de menor prestígio.
Errada, porque o texto não trata de classe social nem de variedades populares, mas da imposição de uma língua sobre outra.
- B)O preconceito regional, ligado a um tipo de aversão ao sotaque ou aos regionalismos típicos de áreas mais pobres.
Errada, pois não há referência a sotaque, região ou fala de determinada área do país.
- C)O preconceito cultural, preso à aversão pela cultura de massa e às variedades linguísticas por ela usadas.
Errada, porque o fragmento não fala de cultura de massa nem de linguagem midiática.
- D)O preconceito político, referente à imposição de uma língua a falantes de outras línguas.
Certa, pois o trecho descreve a imposição da língua do colonizador como idioma oficial, o que caracteriza preconceito político.
- E)O preconceito racial, ligado às manifestações culturais de outras raças, inclusive a língua, considerando-as atrasadas.
Errada, já que não se trata de raça, mas de dominação histórica e política entre povos e suas línguas.
Gabarito: D
O fragmento fala de uma situação em que uma língua é imposta a falantes de outra, isto é, quando o idioma do colonizador passa a ser a língua oficial e ocupa o lugar das línguas locais. Esse é um caso típico de preconceito linguístico ligado ao poder político, não ao jeito de falar de uma classe social, região ou grupo racial. Perceba que o foco do texto não está em sotaque, norma culta ou variedade popular. A questão gira em torno da relação entre língua e dominação histórica: quem manda, escolhe a língua oficial, e quem é dominado costuma ser obrigado a se adaptar. Isso é muito comum em contextos coloniais e pós-coloniais. Por isso, a alternativa D está correta: ela descreve o preconceito político, isto é, a imposição de uma língua a falantes de outras línguas. Na prática, isso se relaciona à ideia de colonialidade linguística, tema que aparece bastante em estudos de sociolinguística e de políticas linguísticas. Vale lembrar que a Constituição Federal protege a pluralidade cultural e linguística do país, e a doutrina de língua portuguesa combate qualquer visão de superioridade de uma variedade sobre outra. Aqui, porém, o ponto principal é a dominação política entre idiomas, e não um julgamento sobre erro de português.