Observe a seguinte descrição machadiana ( Dom Casmurro) da casa onde mora o narrador e que procurou copiar a antiga casa onde morava na infância: "Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tornam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações , e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo..." Sobre a estratégia descritiva empregada nesse texto, é correto afirmar que:
- A)a descrição é feita de cima para baixo, com inicial apreciação visual das partes superiores e, em seguida, das inferiores;
Errada: o trecho não organiza a descrição apenas de cima para baixo, pois mistura partes da construção e detalhes internos sem seguir esse único eixo.
- B)o movimento descritivo parte do aspecto interior da casa para a visão do seu exterior;
Errada: o movimento descritivo não vai do interior para o exterior; na verdade, ele começa pela estrutura da casa e depois detalha o ambiente interno.
- C)a descrição inclui aspectos que implicitamente mostram a situação econômica do narrador e o gosto estético da família;
Certa: os elementos da casa sugerem, de modo indireto, a posição econômica do narrador e o refinamento estético da família.
- D)o texto é construído com riqueza de detalhes e identificação objetiva de todos os elementos descritos;
Errada: embora haja muitos detalhes, a descrição não é totalmente objetiva, porque carrega valor simbólico e subjetivo.
- E)os elementos descritos no texto são frutos de impressões tácteis do narrador.
Errada: o trecho é construído principalmente por impressões visuais, não táteis.
Gabarito: C
A questão explora como a descrição literária não serve só para “mostrar” um lugar, mas também para revelar quem observa e o que esse olhar carrega. Em Machado de Assis, a casa nunca é só casa: ela costuma funcionar como pista psicológica, social e até irônica. Então, quando o narrador manda copiar a antiga residência, ele não está apenas reproduzindo paredes e janelas, mas tentando reconstruir um mundo afetivo e simbólico. No trecho, a descrição é minuciosa e organiza o espaço com referências visuais precisas: número de janelas, varanda, alcovas, pinturas, medalhões, nomes. Isso cria um efeito de verossimilhança, mas também sugere um ambiente de certa sofisticação e um gosto estético refinado, típico de uma família com recursos para decorar a casa dessa maneira. Ou seja, o texto deixa transparecer, sem dizer de modo direto, a posição social do narrador e o padrão cultural do lar. É exatamente aí que a alternativa C acerta: a descrição não é neutra nem puramente técnica. Ela aponta, de forma implícita, para a situação econômica do narrador e para o gosto estético da família. Em Machado, o detalhe descritivo quase sempre vem com segunda intenção. O leitor atento percebe o que está na superfície e também o que está “escondido no desenho da parede”. As demais opções erram porque tentam impor um critério único de organização espacial ou uma objetividade absoluta que não é o foco do trecho. Aqui, o essencial é perceber o valor interpretativo da descrição: ela revela ambiente, memória e classe social ao mesmo tempo.