Leia o texto a seguir. Mulher Bebe dessa fonte que te espera Minhas palavras doces ternas. Grita ao mundo a tua história Vá em frente e não desespera Vem, irmã Bebe da fonte verdadeira Que faço erguer tua cabeça Pois tua dor não é a primeira E um novo dia sempre começa Vem irmã Despe toda a roupa suja Fica nua pelas matas Vomita o teu silêncio E corre – criança – feito garça Vem, irmã Liberta tua alma aflita Liberta teu coração amante Procura a ti mesma e grita: Sou uma mulher guerreira! Sou uma mulher consciente! POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. São Paulo: Global, 2004. O objetivo do texto é
- A)reunir as mulheres para as ações de vivências da realidade citadina.
Errada: o poema não trata da vida urbana, mas de identidade, dor ancestral e libertação simbólica.
- B)convocar a irmã para combater o opressor político-cultural.
Errada: há tom de enfrentamento, mas o foco não é um opressor político-cultural específico, e sim a cura e a afirmação da mulher indígena.
- C)exaltar a importância da procura de si mesma no meio das florestas.
Errada: a imagem da natureza aparece de modo simbólico, mas não como tema central de autoencontro nas florestas.
- D)construir novas visões de comunidades de mulheres feministas livres.
Errada: o texto não discute organização de comunidades feministas livres; ele aposta na retomada da voz e da identidade indígena.
- E)convidar as mulheres indígenas à cura das feridas ancestrais.
Certa: o poema convoca mulheres indígenas a reconhecerem sua dor histórica, romperem o silêncio e buscarem cura e afirmação de si.
Gabarito: E
O texto é um poema de convocação, com voz de chamamento e tom de acolhimento. A eu lírico fala diretamente com “irmã” e “mulher”, usando verbos no imperativo para incentivar a escuta de si, a libertação do silêncio e a afirmação da própria identidade. Não é um texto neutro: ele quer mobilizar, curar e fortalecer. Repare como aparecem imagens de purificação e renascimento, como “bebe da fonte verdadeira”, “vomita o teu silêncio” e “um novo dia sempre começa”. Isso cria a ideia de que existe uma dor antiga, acumulada, que precisa ser reconhecida e superada. Em poesia, esse tipo de linguagem simbólica costuma apontar para sofrimentos históricos e coletivos, não apenas individuais. Por isso o gabarito é a letra E. O texto dialoga com mulheres indígenas e com a experiência de feridas ancestrais, pedindo cura, retomada da voz e reconstrução subjetiva. A obra de Eliane Potiguara, inclusive, é marcada pela valorização da identidade indígena feminina e pela denúncia das violências históricas sofridas por esse grupo. Então, se você leu o poema como uma simples mensagem genérica de autoestima, faltou um detalhe importante: a dimensão coletiva e identitária. Aqui, a fala não quer só animar a “irmã”, mas chamar mulheres indígenas para se reconhecerem, se afirmarem e enfrentarem marcas históricas profundas.