“Todo escritor, por meio do narrador ou dos personagens, utiliza uma linguagem adaptada à situação de comunicação, ou meio social em que os fatos se inserem. Ele também é determinado pelas regras de uso na época em que escreve. Foi assim que se desenvolveu, na época clássica, a ideia de uma ‘boa linguagem’, que rejeitaria tanto os excessos dos puristas quanto a utilização de gírias e regionalismos. Hoje, a escolha entre vários registros de língua permite efeitos de humor e de ironia. É a ocasião de criar um universo original, de instaurar uma relação de cumplicidade particular com o leitor.” Abaixo estão cinco afirmações sobre a língua; aquela que está em desacordo com o que se expressa nesse pequeno texto, é:
- A)Alguns escritores clássicos combatiam os latinismos, que mantinham a dependência de uma língua ao latim, assim como os regionalismos, que impediam a plena comunicação no interior de um mesmo país;
Errada, porque o texto não trata de combate a latinismos, e sim da relação entre língua, época e registros de comunicação.
- B)Os escritores mais modernos se mostram sensíveis às particularidades das línguas em função dos diversos meios sociais que elas representam;
Certa, porque expressa a sensibilidade moderna às variações da língua conforme o meio social.
- C)A literatura moderna mostra uma grande liberdade no uso da língua, incluindo marcas da língua falada e da linguagem popular;
Certa, porque retoma a liberdade moderna de usar marcas da oralidade e da linguagem popular.
- D)Paralelamente, os escritores preocupados com a precisão aproveitam-se de todas as nuances da linguagem culta para a exploração do universo das ideias;
Certa, porque está em linha com o uso da linguagem culta como instrumento de precisão e exploração de ideias.
- E)Apesar de toda a liberdade, é indispensável manter-se a ideia de que a linguagem culta, estabelecida pelo uso consciente da língua dos escritores, é o único meio de obter-se a plena realização de uma obra.
Errada, porque o texto não diz que só a linguagem culta garante a realização da obra; ele defende a pluralidade de registros.
Gabarito: E
O texto fala da relação entre escritor, narrador, personagens e os vários registros da língua. A ideia central é simples: a língua não é um bloco rígido, porque varia conforme a situação de comunicação, o meio social e a época. Por isso, na literatura, tanto a escolha de um registro mais culto quanto o uso de marcas populares, regionais ou coloquiais pode ser recurso expressivo, e não erro. Quando o texto menciona a época clássica, ele lembra que havia a noção de uma “boa linguagem”, mais controlada, rejeitando excessos de purismo, gírias e regionalismos. Já na literatura moderna, o movimento é outro: há mais liberdade para misturar registros, produzir humor, ironia e criar cumplicidade com o leitor. Em outras palavras, a língua vira ferramenta de efeito, não prisão de etiqueta. A alternativa E erra justamente porque afirma que a linguagem culta, estabelecida pelo uso consciente dos escritores, seria o único meio de realizar plenamente uma obra. O texto não diz isso. Pelo contrário, ele valoriza a escolha entre vários registros e mostra que essa variedade pode enriquecer a criação literária. O problema da E é transformar uma possibilidade expressiva em exclusividade absoluta. Então, a chave aqui é perceber o contraste entre a visão clássica, mais normativa, e a visão moderna, mais flexível e artística. Em redação de concurso, quando o texto fala em “variedade de registros”, desconfie de alternativas que tentem impor um único caminho como se fosse lei universal.