Observe o seguinte fragmento textual, de Bertrand Russell: “Certa feita, em Los Angeles, levaram-me para uma visita a um bairro mexicano – “vagabundos ociosos”, disseram-me os cicerones americanos, mas para mim eles pareciam estar usufruindo mais de tudo aquilo que torna a vida uma dádiva, e não uma maldição, do que o destino reservara aos meus anfitriões laboriosos e cheios de ansiedade. Quando tentei, no entanto, explicar esse sentimento, fui encarado com total estranheza e incompreensão”. Quanto aos modos de organização discursiva, o comentário correto sobre esse pequeno texto é que ele
- A)é exclusivamente narrativo, com a sequência cronológica estabelecida em sua introdução e conclusão.
Errada, porque o texto não é exclusivamente narrativo: ele narra uma situação, mas inclui reflexão e confronto de ideias.
- B)se mostra como argumentativo, com a discussão de duas filosofias de vida expostas.
Errada, porque não há duas filosofias de vida formalmente expostas, e sim uma narração com comentário avaliativo do narrador.
- C)parte da descrição de uma cena num bairro americano, para daí surgir uma discussão filosófica.
Errada, porque a cena não é apenas descritiva nem o texto parte só dela para uma discussão filosófica; a narração já traz a reflexão embutida.
- D)se estrutura a partir de uma narração, com uma discussão argumentativa intermediária.
Certa, porque o fragmento começa com uma narração e, no meio dela, desenvolve uma discussão argumentativa sobre formas de viver e perceber a vida.
- E)inicia e termina com uma base narrativa, onde está inserido um texto de caráter expositivo-informativo.
Errada, porque o trecho não se organiza com base narrativa no início e no fim para inserir um texto expositivo-informativo; o centro é a reflexão do narrador.
Gabarito: D
Neste texto, Bertrand Russell não faz uma única coisa, e é justamente aí que a FGV gosta de pegar o candidato. Primeiro, ele narra uma situação concreta: a visita a Los Angeles e o passeio por um bairro mexicano. Há marca temporal, cenário e personagens, então temos base narrativa bem clara. Mas o texto não fica só contando fato por contar. No meio da narração, aparece uma reflexão sobre modos de vida: de um lado, os americanos “laboriosos e cheios de ansiedade”; de outro, os mexicanos vistos como mais próximos de uma vida menos angustiada. Isso já abre uma discussão de caráter argumentativo, porque o autor defende uma percepção e a contrapõe ao olhar dos seus anfitriões. Quando ele tenta explicar o que sentiu e recebe “estranheza e incompreensão”, o trecho reforça essa tensão entre ponto de vista e reação do interlocutor. Ou seja: a narrativa serve de base para sustentar uma reflexão, e a argumentação entra no meio como núcleo interpretativo. Por isso, o gabarito é D: o texto se estrutura a partir de uma narração, com uma discussão argumentativa intermediária. Em provas de interpretação, não basta perguntar “o que acontece?”, mas também “para que a cena está sendo contada?”. Aqui, a cena é o caminho para a ideia.