Sobre a estruturação da frase “Felizes os pachorrentos, que nunca se abatem por nenhuma coisa neste mundo” (Machado de Assis), assinale a afirmação falsa.
- A)Na primeira parte da frase há uma elipse do verbo “ser”: “São felizes os pachorrentos...”.
Certa: há elipse do verbo de ligação, pois se entende “São felizes os pachorrentos”.
- B)A segunda oração mostra valor explicativo em relação ao trecho anterior.
Certa: a oração introduzida por “que” tem valor explicativo em relação ao termo anterior.
- C)O pronome “se” funciona como pronome reflexivo, já que sujeito e objeto se referem à mesma pessoa.
Errada: o “se” não é reflexivo aqui; ele integra o verbo pronominal “abater-se”, sem ideia de sujeito agindo sobre si mesmo.
- D)A preposição “por” introduz um termo sintático com valor de “causa”.
Certa: “por nenhuma coisa neste mundo” apresenta ideia de causa, explicando o motivo de não se abaterem.
- E)O termo “coisa” é um termo de valor semântico geral, empregado em lugar de algo como “fato, acontecimento, problema”.
Certa: “coisa” é usado em sentido genérico, substituindo uma referência mais específica como fato, problema ou acontecimento.
Gabarito: C
A frase de Machado de Assis traz duas ideias sintáticas importantes. Primeiro, em “Felizes os pachorrentos”, há mesmo a omissão do verbo de ligação, algo comum na língua literária e na linguagem corrente. Fica subentendido algo como “São felizes os pachorrentos”, com uma estrutura simples e elegante. Depois vem a oração “que nunca se abatem por nenhuma coisa neste mundo”, ligada ao termo anterior com valor explicativo. O “que” retoma “os pachorrentos” e acrescenta uma informação característica deles, quase como uma explicação extra, não como restrição de um grupo específico. O ponto decisivo da questão está no verbo “abatem-se”. Aqui, o “se” não é reflexivo, porque não há sujeito praticando uma ação sobre si mesmo. A ideia é de verbo pronominal, ligado ao sentido de “desanimar”, “prostrar-se”, “perder o ânimo”. Portanto, não faz sentido dizer que sujeito e objeto são a mesma pessoa, já que nem há objeto direto com esse valor. A preposição “por” introduz complemento com valor de causa, e “coisa” aparece de modo genérico, funcionando como palavra ampla, quase um coringa semântico. Assim, a única afirmação falsa é a que tenta classificar o “se” como reflexivo.