A palavra ainda mostra, nas frases a seguir – retiradas do romance A Mão e a Luva, de Machado de Assis – valor semântico de tempo. Assinale a frase em que a palavra ainda mostra valor diferente.
- A)Duas vezes viu ele a formosa Guiomar, antes de seguir para São Paulo. Da primeira sentiu-se ainda abalado, porque a ferida não cicatrizara de todo; da segunda, pôde encará-la sem perturbação.
Certa no valor temporal, porque "ainda abalado" significa que ele continuava abalado.
- B)Estêvão era mais ou menos o mesmo homem de dois anos antes. Vinha cheirando ainda aos cueiros da Academia, meio estudante e meio doutor, aliando em si, como em idade de transição, o estouvamento de um com a dignidade do outro.
Certa no valor temporal, pois "ainda aos cueiros" indica que ele continuava muito jovem, quase recém-saído da infância.
- C)Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os tais olhos o perseguissem, ainda em sonhos, ou porque estranhasse a cama, ou porque o destino assim o resolvera, a verdade é que Estêvão dormiu pouco, e, coisa rara, acordou logo depois de aparecer a arraiada.
Errada, porque "ainda em sonhos" tem valor de reforço/inclusão, equivalendo a "mesmo em sonhos", e não de tempo.
- D)Estêvão, dotado de extrema sensibilidade, e não menor fraqueza de ânimo, afetuoso e bom, [....] tinha, além de tudo isso, o infortúnio de trazer ainda sobre o nariz os óculos corde-rosa de suas virginais ilusões.
Certa no valor temporal, já que "ainda sobre o nariz" exprime permanência da condição descrita.
Gabarito: C
A palavra "ainda" é uma dessas coringas da língua: dependendo do contexto, ela pode indicar tempo, continuidade, inclusão ou até reforço. Quando ela quer dizer "até agora", "continua" ou "não deixou de", temos valor temporal. É o caso de "ainda abalado", "ainda aos cueiros" e "trazer ainda sobre o nariz", em que a ideia é de permanência de um estado ou condição. Na alternativa C, porém, a história muda de roupa. Em "ainda em sonhos", o sentido não é de tempo, mas de reforço, equivalente a "mesmo em sonhos" ou "até nos sonhos". Ou seja, a palavra não marca duração nem continuidade temporal; ela amplia a ideia do enunciado. Por isso, a banca quer que você perceba que nem todo "ainda" é relógio na frase. Às vezes ele marca tempo, às vezes só faz aquele efeito de "inclusive" ou "até mesmo". Em sintaxe e semântica, a FGV adora esse tipo de troca de função na mesma palavrinha. Resumo de prova: se "ainda" puder ser trocado por "continua" ou "até agora", há valor temporal. Se a troca natural for por "mesmo", "até" ou "inclusive", o valor já é outro. No item C, o uso é esse segundo, por isso ele é o gabarito.