Machado de Assis escreveu certa vez sobre os cronistas (autores de crônicas): “O cronista não tem cargos d’almas, não evangeliza, não endireita os tortos do mundo; é um mero espectador, as mais das vezes pacato, cuja bonomia tem o passo tardo dos senhores do harém”. Segundo esse pequeno texto, o cronista:
- A)interfere, com bondade, nos problemas humanos;
Errada, porque o trecho não mostra o cronista interferindo nos problemas humanos, mas apenas observando-os.
- B)comenta, com distanciamento, o que observa;
Certa, porque o texto apresenta o cronista como mero espectador, que comenta o que vê com distanciamento.
- C)participa do que vê, com sentimentos próprios;
Errada, porque não há participação emocional direta na cena; o enunciado destaca a postura de observador.
- D)relata o que observa, participando com suas opiniões;
Errada, porque o texto não fala em participação do cronista nos fatos, nem em mistura de observação com opiniões como traço central.
- E)narra fatos de que participa, mas com isenção.
Errada, porque o enunciado não sugere narração de fatos vividos pelo cronista, mas sim observação externa.
Gabarito: B
A questão explora a imagem do cronista como alguém que observa o mundo sem a pretensão de “consertá-lo”. No trecho de Machado de Assis, o cronista não evangeliza, não corrige os males da humanidade e não assume postura de militante da verdade absoluta. Ele aparece, antes, como um observador tranquilo, quase um espectador sentado na cadeira, olhando a cena passar. Isso é muito típico da crônica: o autor parte do cotidiano, comenta fatos simples e dá um tom pessoal ao texto, mas nem sempre entra na história como personagem atuante. Aqui, porém, o foco está na ideia de distanciamento. A palavra-chave do enunciado é “espectador”, que combina com quem olha e analisa, sem necessariamente interferir no que vê. Por isso, a alternativa B é a correta: o cronista comenta, com distanciamento, o que observa. Ele não é apresentado como alguém que participa ativamente dos acontecimentos, e sim como alguém que os contempla e os registra com certa bonomia e leveza. Em provas da FGV, é comum a banca misturar traços da crônica - observação, subjetividade, opinião - para testar se você percebe qual deles foi destacado no texto. Aqui, Machado foi bem direto: o cronista observa, mas não toma o palco da ação.