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Português · FGV · 2023

Questão comentada de Português

Leia o fragmento a seguir. Rubião fitava a enseada, — eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade. Machado de Assis. Quincas Borba. São Paulo. Ed. Ática. 1988. No primeiro parágrafo do romance Quincas Borba, de Machado de Assis, o narrador do romance, mostra-se como

Gabarito: A

Aqui a banca quer saber quem está narrando e de que forma esse narrador enxerga o personagem. No trecho, o narrador fala em terceira pessoa e entra na cabeça de Rubião, comparando o passado com o presente, percebendo o que ele pensa e até o modo como ele transforma tudo ao redor em sensação de propriedade. Isso é bem típico de narrador onisciente, porque ele não fica preso só ao que se vê por fora: ele revela o interior do personagem. Repare no jogo de Machado de Assis: o narrador começa como se estivesse apenas descrevendo a cena, mas logo entrega o pensamento íntimo de Rubião. Não é um observador distante e limitado. Pelo contrário, ele sabe mais do que um olhar externo conseguiria captar e mostra características psicológicas com ironia fina, marca clássica do autor. Por isso, a alternativa A está correta: o narrador é observador de caráter onisciente, fornecendo características predominantemente psicológicas do personagem. Na teoria narrativa, isso corresponde ao narrador em terceira pessoa com acesso à interioridade das personagens, o que também é chamado, em muitos manuais, de narrador onisciente intruso ou seletivo, dependendo do grau de intervenção. Em Machado, esse recurso é muito frequente para criar crítica social e psicológica ao mesmo tempo. As outras alternativas tropeçam porque reduzem demais a cena ou confundem narrador com personagem. Aqui o narrador não está preso ao que vê de longe, nem participa da história como personagem. Ele sabe, interpreta e expõe o pensamento de Rubião, e é justamente isso que denuncia o gabarito.

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