Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco. ASSIS, Machado de. Memórias Póstuma de Brás Cubas. Nova Aguilar, Rio de Janeiro: 1994. Sobre a estrutura e os componentes desse fragmento, assinale a afirmativa adequada.
- A)“autor defunto” e “defunto autor” significam exatamente a mesma coisa, sendo uma brincadeira do autor a indicação de uma diferença.
Errada: “autor defunto” e “defunto autor” não são equivalentes, pois a inversão muda o sentido e cria efeito irônico.
- B)Apesar de citar “duas considerações”, o autor só faz uma, indicando distração ou ironia.
Errada: o narrador não se distraiu; ele menciona “duas considerações” e desenvolve duas justificativas, com intenção claramente estilística.
- C)O autor emprega uma ironia na última frase desse segmento do romance.
Certa: a última frase usa comparação e contraste de modo irônico, produzindo humor refinado e crítica sutil.
- D)O aspecto geral do texto o insere entre os textos descritivos, abordando o processo de composição do romance.
Errada: o trecho não é predominantemente descritivo, mas reflexivo e metalinguístico, comentando a própria composição do livro.
Gabarito: C
O fragmento é um ótimo exemplo de texto narrativo com forte metalinguagem: antes mesmo de contar a história, o narrador comenta como vai escrevê-la. Isso já mostra um tom bem machadiano, em que a forma de narrar vira parte da graça do texto. Repare que ele brinca com a ideia de começar pelo nascimento ou pela morte e, com isso, chama atenção para o próprio ato de escrever. O ponto central da questão está na ironia. Quando o narrador diz que não é “propriamente um autor defunto, mas um defunto autor”, ele inverte expectativas de modo espirituoso, como quem faz uma piada elegante com a própria condição. E isso se reforça no fecho do trecho, quando ele compara seu livro ao Pentateuco e fala em “diferença radical”, criando um contraste irônico entre sua obra e um texto sagrado de enorme tradição. Por isso o gabarito é a letra C: a última frase do segmento tem ironia evidente, porque usa uma comparação solene e aparentemente respeitosa para produzir efeito de humor e distanciamento. Machado de Assis faz isso com frequência: a frase parece séria, mas o subtexto é de deboche fino, típico do narrador que conversa com o leitor e ao mesmo tempo o surpreende. As outras alternativas tentam simplificar ou desviar o foco. Aqui não há mera descrição, nem distração do narrador, nem equivalência entre expressões que foram justamente criadas para marcar oposição. O segredo é perceber que, em Machado, a frase quase nunca quer dizer só o que parece dizer.