O escritor francês Montaigne declarou: "Estamos sempre dispostos a atribuir aos escritos dos outros sentidos que favoreçam as nossas opiniões sedimentadas: um ateu se orgulha de fazer com que todos os autores reforcem a causa do ateísmo. Ele envenena com sua própria peçonha o mais inocente pensamento". Depreende-se da leitura desse texto que:
- A)Montaigne é adepto da causa do ateísmo;
Errada: o trecho não permite concluir que Montaigne apoie o ateísmo, apenas que usa o ateu como exemplo.
- B)alguns autores interpretam favoravelmente textos alheios;
Certa: o texto afirma que algumas pessoas atribuem aos escritos alheios sentidos que confirmam suas opiniões já formadas.
- C)nossas opiniões sempre encontram apoio em outros textos;
Errada: o texto não diz que nossas opiniões sempre encontram apoio em outros textos, mas que isso pode ocorrer por leitura tendenciosa.
- D)nossas convicções se modificam conforme nossas leituras;
Errada: o foco não é a mudança de convicções do leitor, e sim a tendência de interpretar o texto conforme crenças prévias.
- E)as citações de textos alheios envenenam nossas idéias.
Errada: o problema não é a citação de textos alheios, mas a distorção do sentido do texto pelo leitor.
Gabarito: B
A questão explora interpretação de texto e a ideia de que o leitor nem sempre é neutro: muitas vezes ele lê puxando o texto para confirmar o que já pensa. Montaigne critica justamente esse comportamento, mostrando como alguém com uma opinião pronta pode torcer o sentido das palavras alheias para fazer o texto “servir” à sua tese. Perceba que ele fala de uma disposição comum: atribuir aos escritos dos outros sentidos que favoreçam as opiniões sedimentadas. Ou seja, a pessoa não lê para descobrir o que o autor realmente quis dizer, mas para encontrar apoio para o que já acredita. Isso é exatamente o núcleo da alternativa B. As demais opções exageram ou distorcem a ideia do trecho. O texto não diz que Montaigne era ateu, nem que as opiniões sempre encontram apoio em outros textos, nem que as convicções mudam com as leituras. Também não fala que citar textos alheios envenena ideias; o problema apontado é a interpretação tendenciosa, não a citação em si. Em provas da FGV, vale ouro separar o que o texto afirma do que o leitor projeta sobre ele. Aqui, a banca quer que você perceba a crítica à leitura enviesada, quase um “cada um lê com o seu filtro”.