A minha relação com arte na escola sempre foi com professor Karaí e a única semana que a gente via algo assim da nossa cultura era na semana de 19 de abril, a semana dos povos indígenas. A escola fazia muitos eventos como brincadeiras tradicionais, alimentos, feira, desenho, poesia com alunos da escola. Na escola onde estudei, a Escola Tengatui, a gente começa a ter aula de Guarani e Terena no sexto ano. Do pré ao quinto ano, a gente não tem aula de língua materna e, na maioria das vezes, não é professor indígena; é sempre um Karaí. Uma questão que eu deixo: uma criança que falou até os cinco anos a língua materna, quando entra num contexto desse dentro da sala de aula, ela vai ter dificuldade de comunicar para pedir para ir ao banheiro, para lanchar. Como a criança vai ficar nesse contexto? Como um professor Karaí pode ajudar nesse ponto? CHAMORRO, G.; LANGER, P. P; COMBES, I. Povos Indígenas no MS: História, Cultura e Transformações Sociais. 2012. De acordo com o texto, é correto afirmar que
- A)A presença da arte é importante para que as pessoas conheçam sua origem e sua história e, também, façam valer sua subjetividade.
Errada, porque o texto não discute a arte como instrumento de identidade subjetiva, e sim a distância entre escola, cultura e língua indígena.
- B)As escolas, hoje, enxergam a arte como um objeto de estudo aprofundado e não somente como mais uma atividade.
Errada, porque não há no texto a ideia de valorização aprofundada da arte como objeto de estudo, mas uma crítica ao modelo escolar.
- C)Há um desencontro entre professor e aluno no contexto da escola, especialmente no que se refere à cultura e à língua empregadas nas aulas.
Certa, porque o trecho mostra um descompasso entre professor e aluno quanto à cultura e à língua usadas na escola.
- D)O educador deve trabalhar a arte de forma lúdica e interessante em sala de aula, de forma a prender a atenção do aluno.
Errada, porque o texto não trata de metodologia lúdica no ensino de arte, e sim de um problema de comunicação e pertencimento cultural.
- E)A arte é baseada em uma noção intuitiva que forma nossa consciência e, por isso, não precisa de um tradutor, de um intérprete.
Errada, porque o texto justamente mostra que a língua materna importa e que a ausência dela cria dificuldades de comunicação e aprendizagem.
Gabarito: C
O texto fala de uma escola indígena em que a língua e a cultura da comunidade aparecem de forma muito limitada, quase como evento ocasional. Repare que a fala destaca que, do pré ao 5º ano, muitas vezes nem há professor indígena e não há aula na língua materna. Isso gera um choque claro entre o mundo da criança e o ambiente escolar. Na prática, a criança chega à sala sabendo se comunicar em sua língua, mas a escola funciona em outra lógica linguística e cultural. A própria passagem sobre pedir para ir ao banheiro ou lanchar mostra um problema real de comunicação básica, que vai além de conteúdo: é um desencontro entre professor e aluno no cotidiano da aprendizagem. Por isso, o gabarito é a letra C. O texto critica justamente a falta de adequação da escola à cultura e à língua dos estudantes indígenas. Em vez de uma educação bilíngue e intercultural, o cenário descrito mostra predominância do modelo do não indígena, o que dificulta a inclusão e o aprendizado. A Constituição Federal, no art. 210, §2º, garante às comunidades indígenas o uso de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem, o que reforça essa leitura. As demais alternativas tentam puxar o texto para uma ideia genérica sobre arte, mas o foco do excerto não é enaltecer a arte em si, e sim denunciar a distância entre escola, cultura e língua. A banca FGV costuma gostar desse tipo de leitura: você precisa olhar para o problema central do trecho, sem se deixar levar por palavras bonitas que aparecem no enunciado.