“Os Cactos da Encosta têm por desagradáveis vizinhos os Promotores da Bagunça. Os Trapezistas do Asfalto não se entendem seja com os Promotores da Bagunça, seja com os Camelôs da Praça para atenuar uma ameaça contra os Cactos da Encosta, depois, naturalmente de se aliarem com os Bitolados da Patota, ou depois de momentaneamente, por acordos secretos, terem neutralizado os Camaleões de Plantão. A situação, naturalmente, não se apresenta sempre assim de uma maneira tão simples.” (texto adaptado de Henri Michaux) Alguns textos provocam lágrimas, outros provocam admiração ou exaltação, outros fazem rir, outros nos trazem pessimismo e assim por diante. No caso desse pequeno texto, o que predomina é:
- A)o tom trágico, fundamentado na crença de que as coisas são inevitáveis, como a relação problemática entre os grupos;
Errada, porque não há inevitabilidade trágica nem peso dramático real, e sim uma comicidade criada pela situação absurda.
- B)o tom lírico, que exalta os sentimentos íntimos comuns a todos os homens, como ocorre nesses grupos;
Errada, porque o texto não exalta sentimentos íntimos nem busca musicalidade afetiva típica do lirismo.
- C)o tom patético, que provoca uma ternura exagerada nos leitores diante de uma triste situação, sem remédio;
Errada, porque o trecho não desperta compaixão nem ternura exagerada, mas sim estranhamento e humor.
- D)o tom cômico, que se fundamenta numa quebra de expectativa, como a de se considerar simples uma situação confusa;
Certa, porque o humor nasce da quebra de expectativa entre a aparência séria do enunciado e a confusão caricatural da situação.
- E)o tom épico, que procura valorizar ações de grupos.
Errada, porque não há celebração heroica de ações coletivas, e sim uma paródia de relações entre grupos.
Gabarito: D
As alternativas que falam em tragédia, lirismo, patetismo ou épica não combinam com esse tipo de construção. Não há fatalismo trágico, nem exaltação sentimental, nem apelo à ternura, nem valorização heroica de feitos. O mecanismo central é a surpresa: o texto se apresenta como importante e acaba soando ridiculamente complicado. É esse descompasso que a FGV adora explorar.