Observe o seguinte pensamento do humorista Millôr Fernandes: “A economia compreende todas as atividades do país, mas nenhuma atividade do país compreende a economia”. O pensamento é composto por duas orações; sobre a sua estruturação, é correto afirmar que:
- A)a frase mostra uma rigorosa inversão dos termos nas duas orações que a compõem;
Errada: há paralelismo e contraste, mas não uma rigorosa inversão dos termos nas duas orações.
- B)enquanto a primeira oração mostra sentido lógico, a segunda mostra sentido figurado;
Errada: as duas orações são lógicas e o efeito é de jogo de sentidos, não de oposição entre sentido literal e figurado.
- C)o verbo “compreender” é empregado com significados distintos nas duas orações;
Certa: o verbo “compreender” é usado com sentidos diferentes, primeiro como “abranger” e depois como “entender”.
- D)enquanto a primeira oração é construída na voz ativa, a segunda é construída na voz passiva;
Errada: não há voz passiva na segunda oração; o verbo continua em construção ativa.
- E)o pensamento é estruturado sobre uma oposição entre presente X futuro.
Errada: o pensamento não explora oposição entre presente e futuro, mas um contraste semântico no uso do verbo.
Gabarito: C
Aqui a chave é perceber que o humor do Millôr nasce de uma troca de sentido dentro do mesmo verbo. Na primeira oração, “a economia compreende todas as atividades do país” significa algo como “abrange”, “engloba”, “inclui”. Já na segunda, “nenhuma atividade do país compreende a economia” usa “compreender” no sentido de “entender”, “apreender intelectualmente”. Ou seja, não é apenas repetição elegante: é um jogo semântico. A estrutura sintática até parece espelhar as duas orações, mas o efeito de sentido vem justamente da mudança de significado do verbo. Isso cria a graça do pensamento: aquilo que engloba tudo não é englobado por nada, e ainda brinca com a expectativa do leitor. Por isso o gabarito é a letra C. A banca quer que você note que a questão não trata de voz verbal, nem de tempo verbal, nem de uma simples inversão mecânica dos termos. O ponto central é a polissemia do verbo “compreender”, que aparece com sentidos distintos nas duas orações, produzindo o efeito estilístico do enunciado.