Abaixo estão cinco segmentos de textos narrativos; aquele texto em que o ponto de vista adotado pelo narrador pode ser caracterizado como onisciente, é:
- A)“Mas o barulho foi tão grande nesse momento, que Cláudio não pôde responder. Devemos confessar que nosso herói foi pouco herói nesse momento, apesar de o medo que o tomou não ter sido exagerado.”
Certa: o narrador conhece o estado emocional de Cláudio e ainda o avalia, traço típico de onisciência.
- B)“Eu ao menos, eu experimentava o estranho contraste entre as promessas da primavera e a sinistra pesquisa em que estava engajado.”
Errada: há narrador em primeira pessoa, com relato subjetivo da própria experiência, não visão onisciente.
- C)“Júlio nunca havia visto uma pessoa tão bem-vestida e sobretudo uma mulher com uma pela tão luminosa, falando com ele com um ar tão doce.”
Errada: o trecho mostra apenas a percepção de Júlio sobre a aparência da mulher, sem acesso amplo à mente de vários personagens.
- D)“Antes ele não sorriu. Antes ele oferece um cigarro. Sua mão treme.”
Errada: o texto é fragmentado e descritivo, com observação externa, sem intervenção onisciente clara.
- E)“Ontem à tarde, eu passeava sozinho; o céu mostrava uma aparência de outono; um vento frio soprava em intervalos...”.
Errada: também é narração em primeira pessoa, centrada na experiência do eu narrativo, não em conhecimento total da cena.
Gabarito: A
Na narrativa, o ponto de vista do narrador pode variar bastante: ele pode falar em primeira pessoa, se limitar ao que observa, ou saber mais do que qualquer personagem. Quando o narrador conhece pensamentos, sentimentos e até comenta os fatos com certa distância, estamos diante do narrador onisciente. Em provas, a FGV gosta de misturar isso com marcas de primeira pessoa, porque um narrador pode usar “nós” e ainda assim saber mais do que um personagem isolado. No trecho da alternativa A, o narrador não apenas relata o que aconteceu, como também entra no interior de Cláudio e avalia seu comportamento: diz que ele “não pôde responder”, chama-o de “nosso herói” e ainda comenta que ele foi “pouco herói”, embora o medo não fosse exagerado. Esse tipo de comentário e de acesso ao estado psicológico do personagem mostra um narrador que sabe mais do que os personagens sabem de si mesmos naquele momento. Por isso, o texto é onisciente: o narrador tem visão ampla da cena e da mente do personagem, além de emitir juízo sobre ele. Em termos doutrinários, é o típico narrador em terceira pessoa com foco onisciente, embora possa aparecer em primeira pessoa do plural quando assume voz avaliativa. As demais alternativas trazem narrador em primeira pessoa ou apenas descrição externa, sem essa visão abrangente.