Os povos indígenas, por terem um olhar apresentado pelo colonizador, acabaram e ainda acabam sendo posicionados como os “outros”, “os diferentes”, e esse posicionamento decorre das relações de poder que são “outorgadas” pela cultura ocidental, pelos colonizadores. Esses povos encontram-se inscritos com as marcas culturais, sociais e epistêmicas em decorrência de como foram impostas e são ordenadas na chamada cultura ocidental. Como diz o provérbio africano, “[...] até que os leões inventem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça”. Em outras palavras, as narrativas desses povos foram subalternizadas pelas narrativas hegemônicas impostas pela colonialidade, situação em que seus saberes não são considerados “acadêmicos” e suas lógicas como conhecimentos limitados, mágicos, de segunda categoria. URQUIZA, Antônio H. Aguilera e CALDERONI, Valéria A. M. O. A influência dos estudos culturais para a construção dos diferentes olhares e saberes sobre os povos indígenas. Disponível em: https://periodicos.ufms.br›cadec›article›view . Acesso em: 4 mar. 2023. De acordo com o texto, assinale a afirmativa correta.
- A)As relações de poder estão extinguindo os preconceitos contra os indígenas, que não são mais taxados pejorativamente como os “outros”, “os diferentes”.
Errada, porque o texto diz que os indígenas ainda são posicionados como “os outros”, e não que esse preconceito esteja acabando.
- B)As narrativas dos povos indígenas foram pintadas como essencialmente desnecessárias às estratégias de progresso da nação brasileira.
Errada, porque o texto não fala de utilidade para o progresso nacional, mas da desvalorização das narrativas indígenas pela visão colonizadora.
- C)Os saberes tradicionais foram inferiorizados e não aceitos como conhecimentos científicos pelo colonizador.
Certa, porque o trecho afirma que os saberes indígenas foram considerados limitados e não reconhecidos como acadêmicos pelo colonizador.
- D)Os estudos culturais sancionaram as implicações da colonização das culturas dos povos indígenas, defendendo a imposição de um modelo de caráter eurocêntrico.
Errada, porque os estudos culturais são apresentados como instrumento de crítica à colonialidade, e não de defesa da imposição eurocêntrica.
- E)No complexo das narrativas indígenas, o conjunto de animais místicos (bestiário) figura no plano de combate exercendo a função de herói e de antagonista.
Errada, porque o texto não trata de bestiário, heróis ou antagonistas, mas da relação de poder que subalterniza narrativas indígenas.
Gabarito: C
O texto fala de uma ideia bem conhecida nas discussões sobre colonialidade: quem narra a história costuma mandar também na forma como o outro é visto. Por isso, os povos indígenas aparecem, muitas vezes, como “os diferentes”, “os outros”, porque a visão colonizadora impôs sua própria leitura do mundo e tratou os saberes indígenas como inferiores. Repare que o trecho insiste em dois pontos: desvalorização e silenciamento. As narrativas indígenas foram subalternizadas, isto é, colocadas em posição de menor valor, enquanto a cultura ocidental passou a definir o que seria conhecimento válido, sério e “acadêmico”. É exatamente isso que a alternativa C resume: os saberes tradicionais foram inferiorizados e não aceitos como conhecimentos científicos pelo colonizador. Ela está alinhada ao texto sem forçar interpretação nem inventar ideia de progresso, heroísmo ou defesa do eurocentrismo. Em termos de leitura de prova, quando a FGV traz um texto com marcas de colonialidade, fique atento a palavras como subalternização, hegemonia, poder e silenciamento. Elas costumam apontar para a crítica à visão dominante, não para a sua defesa.