Millôr Fernandes escreveu um livro que mostra humoristicamente uma série de composições infantis, entre elas a que vai a seguir: "A galinha é um bicho com seis lados: esquerdo, direito, em cima, embaixo, atrás e na frente. Está sempre limpando os pés como a mamãe manda que a gente faça quando entra em casa e a gente não faz. Tem um bico que serve para bicar e um cacarejo que serve para dizer que ela botou o ovo. Quando ela não cacareja, então fica resmungando baixinho feito vovó. Quando a cozinheira vai matar ela, a gente morre de pena, mas na hora do almoço ela fica tão gostosa que a gente nem se lembra". O observador, que realiza uma descrição, não descreve tudo o que vê por causa de suas limitações; a limitação do observador do texto acima é proveniente:
- A)das condições físicas do local onde está o animal descrito;
Errada, porque o texto não sugere problema das condições físicas do ambiente, e sim do olhar infantil de quem descreve.
- B)do próprio referente, pois uma galinha é um tipo de ave não muito conhecido pelos humanos;
Errada, porque a questão não aponta desconhecimento do animal pelos humanos em geral, mas a limitação de quem narra.
- C)de caráter psicológico, pois, por algum motivo interior, não chega a ver o animal como ele é de fato;
Errada, porque não há indício de bloqueio emocional ou distorção psicológica na percepção do observador.
- D)de seu posicionamento, pois onde se posiciona não consegue ver detalhes do animal descrito;
Errada, porque o problema não é a posição espacial do observador, já que a descrição é limitada por conhecimento, não por ângulo de visão.
- E)de conhecimento, pois, sendo criança, não conhece tudo sobre o tema.
Certa, porque a criança descreve a galinha com base no que conhece e mistura observação com referências do seu cotidiano.
Gabarito: E
Nesta questão, o ponto central é perceber que a descrição não é neutra: quem descreve seleciona os traços que conhece, entende ou considera relevantes. Em textos descritivos, especialmente quando há um olhar infantil ou subjetivo, a imagem do objeto pode ficar “torta” não porque o objeto seja assim, mas porque quem olha ainda não domina totalmente o que vê. No trecho, a galinha é descrita com características que misturam observação, imaginação e comparação com pessoas da família. Isso já mostra que o narrador observa o animal como uma criança, isto é, com repertório limitado e linguagem própria da infância. Ele não consegue descrever tudo como um adulto informadíssimo faria, porque seu conhecimento sobre o tema é restrito. Por isso, o gabarito é a letra E: a limitação do observador decorre de conhecimento. A criança conhece o que está ao seu alcance e preenche o resto com referências do cotidiano, como “mamãe”, “vovó” e “cozinheira”. A descrição fica engraçada justamente porque revela esse olhar parcial e infantil. Em prova, quando a banca fala em “limitação do observador”, pense logo: o problema está no que ele sabe, no que ele percebe ou na posição em que está? Aqui, não é falta de visão física nem defeito do referente; é falta de repertório sobre o objeto descrito.