O escritor alemão Walter Benjamin escreveu: “O efeito de uma estrada campestre não é o mesmo quando se caminha por ela ou quando a sobrevoamos de avião. De igual modo, o efeito de um texto não é o mesmo quando ele é lido ou copiado. O passageiro do avião vê apenas como a estrada abre caminho pela paisagem, como ela se desenrola de acordo com o padrão do terreno adjacente. Somente aquele que percorre a estrada a pé se dá conta dos efeitos que ela produz e de como aquela mesma paisagem, que aos olhos de quem a sobrevoa não passa de um terreno indiferenciado, afloram distâncias, belvederes, clareiras, perspectivas a cada nova curva. Apenas o texto copiado produz esse poderoso efeito na alma daquele que dele se ocupa...”. Sobre os componentes ou a estrutura desse pequeno texto argumentativo, é correto afirmar que
- A)a analogia realizada no início do texto mostra as vantagens de quem lê o texto com atenção.
Errada, porque a analogia não valoriza apenas a leitura atenta em geral, mas sobretudo a relação mais intensa e ativa com o texto, representada pela cópia.
- B)o sobrevoo de avião sobre a estrada campestre se equipara ao ato de copiar o texto, já que ambos estão distantes dele.
Errada, porque o texto não equipara o sobrevoo ao ato de copiar; pelo contrário, o sobrevoo representa uma visão distante e superficial, enquanto copiar implica aproximação.
- C)o texto tenta mostrar a superioridade do leitor que se envolve diretamente com ele, copiando-o.
Certa, porque o texto defende que quem se envolve diretamente com o texto, copiando-o, experimenta um efeito mais profundo do que quem apenas o observa de longe.
- D)o termo “apenas” em “O passageiro do avião vê apenas como a estrada abre caminho pela paisagem...” é um modalizador depreciativo.
Errada, porque "apenas" aí não é modalizador depreciativo; é um advérbio de exclusão que limita a percepção do passageiro.
- E)a tentativa de convencimento do leitor apela para argumentos lógicos, apoiados em valores sociais.
Errada, porque a argumentação se apoia em analogia e imagens concretas, não em valores sociais nem em raciocínio lógico abstrato.
Gabarito: C
O texto de Walter Benjamin funciona como uma pequena argumentação por analogia: ele compara a experiência de ler um texto com a experiência de percorrer uma estrada. A ideia central é simples, mas elegante: não basta um contato superficial com o texto, porque o modo de interação muda completamente o efeito produzido. Ler e copiar não são atos equivalentes; copiar exige atenção, ritmo, releitura e envolvimento físico e mental com as palavras. É por isso que o gabarito é a letra C. O trecho final afirma que "apenas o texto copiado produz esse poderoso efeito na alma daquele que dele se ocupa". Ou seja, o autor sustenta a superioridade da leitura ativa, do leitor que se envolve diretamente com o texto, não daquele que apenas o vê de longe. A cópia aparece como forma de aproximação intensa, quase uma leitura em câmera lenta. Na estrutura argumentativa, Benjamin usa imagens concretas para convencer sem parecer que está discursando com gravata apertada. Ele mostra que a compreensão muda conforme a posição do sujeito diante do objeto: de longe, vê-se o conjunto; de perto, surgem detalhes, caminhos, curvas e sentidos. Isso é um recurso clássico de argumentação por comparação/analogia, muito usado em textos dissertativos para tornar uma ideia abstrata mais palpável. Então, ao ler a questão, foque nisso: o texto não está elogiando qualquer leitura distraída, nem falando de valores sociais. Ele quer convencer de que a experiência mais envolvente com o texto gera maior efeito interpretativo e sensível. É uma lição de leitura ativa - e também uma cutucada em quem acha que basta bater o olho e já entendeu tudo.