Todos os segmentos textuais abaixo são exemplos de textos narrativos, que podem mostrar, entre outras, uma focalização onisciente dos fatos, ou seja, em que o narrador mostra um conhecimento completo de todos os elementos romanescos: tempo, espaço e personagens. Esse tipo de focalização está apresentado em:
- A)Meus pensamentos vagaram toda a noite por projetos a serem realizados e, quando despertei, procurei anotar alguns detalhes importantes;
Errada, porque traz um narrador em primeira pessoa que relata apenas pensamentos e ações próprias, sem conhecimento pleno de todos os elementos narrativos.
- B)A raposa olhou as uvas lá no alto e, sabendo que não iria alcançá-las, desistiu do seu projeto, alegando que estavam verdes, mantendo, assim, o orgulho;
Certa, porque o trecho revela a intenção, a avaliação e a atitude interna da personagem, mostrando um narrador com acesso amplo ao pensamento da raposa.
- C)O homem aproximou-se do portão da casa e talvez, desejoso de ver a sua amada, apertou o botão da campainha...;
Errada, porque o uso de "talvez" indica dúvida e limitação de conhecimento, o que afasta a focalização onisciente.
- D)Estacionei o carro na esquina, deixei rapidamente o local e meia hora depois a explosão acordou todo o quarteirão;
Errada, porque o narrador se limita ao que viveu e ao que percebeu no tempo da ação, sem demonstrar saber total sobre personagens e fatos.
- E)Ele não sabia por que estava ali, parado, nem mesmo eu, o narrador desta história, tenho esse conhecimento.
Errada, porque o próprio texto afirma uma limitação de conhecimento, negando a onisciência e afastando o foco total do narrador.
Gabarito: B
Na narrativa, a focalização é o ponto de vista pelo qual a história é mostrada. Quando ela é onisciente, o narrador sabe mais do que qualquer personagem: conhece fatos, intenções, sentimentos e até o que não foi dito em voz alta. É aquele narrador que parece estar em todo lugar ao mesmo tempo, sem tropeçar no enredo. Na questão, a banca quer um trecho em que esse conhecimento total apareça de forma clara. O detalhe decisivo é perceber se o texto revela algo que a própria personagem não poderia saber com certeza. Se o narrador entra na cabeça da personagem e ainda expõe sua motivação interna, isso já aponta para uma visão onisciente. Por isso, a alternativa B é a correta. Em "sabendo que não iria alcançá-las" e "alegando que estavam verdes", o texto não fica só na ação externa da raposa: ele mostra a consciência do animal, sua avaliação da situação e até a justificativa do orgulho. Esse tipo de acesso ao interior da personagem é típico da focalização onisciente. As outras alternativas não sustentam essa ideia com a mesma força. Há trechos em primeira pessoa, hipóteses, suposições ou limitação do conhecimento, o que enfraquece a presença de um narrador que tudo sabe. Em concursos, a FGV costuma cobrar justamente essa distinção fina entre narrador observador, narrador participante e narrador onisciente.