Observe-se a seguinte frase de Machado de Assis: “A paciência elabora-se com facilidade; perde-se de manhã e já de noite se pode sair com dose nova”. Nessa frase, há três ocorrências do vocábulo “se”, que devem ser respectivamente analisadas do seguinte modo:
- A)indeterminador do sujeito – indeterminador do sujeito – indeterminador do sujeito.
Errada: o primeiro e o segundo "se" não indeterminam sujeito, porque há sujeito paciente claro nas duas passivas sintéticas.
- B)pronome reflexivo – pronome reflexivo – pronome apassivador.
Errada: o primeiro e o segundo "se" não são reflexivos, pois a ação não volta para o próprio sujeito.
- C)pronome apassivador – pronome apassivador – indeterminador do sujeito.
Certa: os dois primeiros "se" formam voz passiva sintética e o terceiro indica sujeito indeterminado.
- D)pronome reflexivo – pronome apassivador – parte integrante do verbo.
Errada: o terceiro "se" não é parte integrante do verbo, porque em "se pode sair" ele tem valor sintático definido.
- E)pronome apassivador – indeterminador do sujeito – parte integrante do verbo.
Errada: o segundo "se" não indica sujeito indeterminado, e o terceiro também não é parte integrante do verbo.
Gabarito: C
O vocábulo "se" é uma daquelas pecinhas do português que mudam de função conforme a frase. Em prova de concurso, o segredo é olhar se o verbo admite sujeito paciente, se há ideia de reflexividade ou se o "se" só serve para deixar o sujeito indeterminado. Parece detalhe, mas a banca adora esse jogo. Na frase "A paciência elabora-se com facilidade", há voz passiva sintética: "a paciência" sofre a ação de "elaborar". Reescrevendo, fica algo como "A paciência é elaborada com facilidade". Então o primeiro "se" é pronome apassivador. Em "perde-se de manhã", a lógica é a mesma. O sentido é de voz passiva sintética, equivalente a "a paciência é perdida de manhã". De novo, o "se" funciona como pronome apassivador. Já em "se pode sair com dose nova", o verbo está em construção impessoal, sem sujeito determinado. Aqui o "se" não apassiva nada: ele indica indeterminação do sujeito. Por isso, o gabarito C está correto: pronome apassivador - pronome apassivador - indeterminador do sujeito. Essa distinção é a clássica da morfossintaxe cobrada em concursos, especialmente pela FGV.