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Português · FGV · 2023

Questão comentada de Português

Leia o fragmento textual a seguir. O senão deste livro Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem... E caem! — Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar... Heis de cair. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Tipografia Nacional. Rio de Janeiro. 1ª ed. 1881. Segundo o fragmento textual, o verdadeiro senão do livro é

Gabarito: D

Nesta questão, a banca quer que você identifique o sentido de uma palavra no texto, e não apenas o significado “de dicionário”. Em interpretação, isso é essencial: a palavra ganha valor pelo contexto. Aqui, o narrador brinca com o leitor e diz que o maior defeito do livro é justamente alguém que lê com pressa, quer ação direta e não tolera uma narrativa mais reflexiva e sinuosa. Quando ele fala em “senão”, a ideia não é um problema do enredo, nem do tema, nem da ordem da narrativa. O narrador está apontando para quem recebe o texto: o leitor. Ele critica o tipo de leitor que prefere uma história rápida, linear e agitada, enquanto o livro segue um ritmo próprio, mais lento, irônico e cheio de digressões. Por isso, a alternativa correta é a D. O fragmento deixa claro que o “maior defeito deste livro” é o leitor que “tem pressa de envelhecer” e “ama a narração direta e nutrida”, ou seja, alguém que não combina com o estilo da obra. Em Machado de Assis, isso aparece muito: o narrador conversa com o leitor, provoca, desvia o foco e faz do próprio ato de narrar parte do sentido. Na prática, a resposta exige leitura fina: o texto não está dizendo que o livro é ruim por causa do tema ou da estrutura, mas que o problema está na expectativa do leitor. É uma questão clássica de interpretação contextual, em que a ironia machadiana faz o leitor tropeçar justamente se ele ler rápido demais.

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