Um jornalista, ao analisar o texto de um parlamentar que prometera apoiar a medida proposta por um outro parlamentar, criticou-o, escrevendo que “o congressista explicara em mal português que ‘daria apoiamento à proposição do colega’”. Em função do exposto, aplica-se perfeitamente ao jornalista o seguinte ditado latino:
- A)Abusus non tollit usum / O abuso não tolhe o uso, ou seja, o direito de uso não é abolido pelo fato de que alguém tenha abusado.
Errada, porque fala de abuso de um direito de uso, sem relação com a ideia de autocensura ou de criticar o outro sem examinar a si mesmo.
- B)Medice, cura te ipsum / Médico, cure sua doença primeiro, antes de se aplicar às demais.
Certa, porque significa que a pessoa deve corrigir a si mesma antes de criticar o próximo, exatamente o sentido sugerido no enunciado.
- C)Ad surdus aures canere / Cantar para ouvidos surdos, lamentar-se sem que ninguém preste atenção.
Errada, pois trata de falar com quem não quer ouvir, e não de autocrítica ou incoerência de quem censura.
- D)Amicus certus in re incerta cernitur / O amigo certo se reconhece nos momentos de dificuldade.
Errada, porque se refere à fidelidade do amigo nas dificuldades, tema totalmente alheio à situação narrada.
- E)De gustibus non est disputandum / Sobre gostos não se discute.
Errada, já que trata de preferência pessoal e da impossibilidade de discutir gostos, sem ligação com a crítica feita pelo jornalista.
Gabarito: B
A questão trabalha com interpretação irônica: o jornalista criticou um trecho em que o parlamentar prometeu apoio usando uma forma de linguagem considerada ruim ou rebuscada demais, ou seja, ele apontou defeito justamente em algo que também podia ser visto como um uso legítimo da língua. A ideia central é a de alguém que censura o outro, mas não está livre de falha parecida. Em provas, esse tipo de enunciado costuma testar mais a leitura fina do que o latim em si. O ditado que se encaixa aqui é Medice, cura te ipsum, expressão que significa, em resumo, "médico, cure a si mesmo". O sentido é claro: antes de corrigir o erro alheio, a pessoa deve olhar para os próprios defeitos. No caso, o jornalista critica o "mal português" do parlamentar, mas a frase sugere que ele também poderia estar exagerando, sendo pedante ou cometendo seu próprio deslize de julgamento. Não há fundamento legal aqui, porque o tema é linguístico e interpretativo, não jurídico. O ponto importante é reconhecer o valor moral e retórico do provérbio: ele aponta hipocrisia, incoerência ou falta de autocrítica. Em linguagem de prova, é a clássica cobrança de coerência antes da censura. Por isso, a alternativa B é correta: ela traduz exatamente a ideia de alguém que deveria aplicar a crítica a si mesmo antes de apontá-la no outro. As demais opções falam de uso e abuso, indiferença à crítica, amizade e gosto pessoal, mas nenhuma expressa essa noção de autocrítica e censura a si próprio.