Num célebre texto sobre o alfabeto, Millôr Fernandes escreveu: “O A é uma letra com sótão. Chove sempre um pouco sobre o à craseado. O B é um l que se apaixonou por um 3. O b minúsculo é uma letra grávida. Ao C só lhe resta uma saída. O Ç cedilha, esse jamais tira a gravata.” Esse pequeno texto se baseia
- A)no significado de cada letra citada.
Errada, porque o texto não se baseia no significado das letras, mas na aparência que elas sugerem.
- B)na semelhança visual de letras e outras realidades.
Certa, pois o humor do trecho nasce da semelhança visual entre letras e outras realidades.
- C)na possibilidade cômica de ridicularizar o alfabeto.
Errada, porque a ridicularização pode até existir como efeito, mas não é o fundamento do texto.
- D)na criatividade dos autores dos desenhos das letras.
Errada, porque o foco não está em desenhos autorais das letras, e sim na comparação visual feita pelo escritor.
- E)na explicação histórica de cada formato das letras.
Errada, porque o texto não explica a origem histórica dos formatos, apenas brinca com suas formas.
Gabarito: B
Aqui a FGV trabalha com uma leitura bem visual do texto. Millôr Fernandes brinca com a forma gráfica das letras, como se elas lembrassem objetos, pessoas e situações do cotidiano. Repare: o A parece ter um “sótão”, o B lembra um l com um 3, o b minúsculo parece “grávido”, e o Ç aparece de gravata. Isso não depende do som das letras nem da história delas, mas da aparência que elas sugerem ao olhar. Esse é o ponto central: o humor nasce da semelhança visual entre letras e outras realidades. É uma figura de linguagem baseada em analogia de forma, quase uma caricatura tipográfica. Em vez de explicar a letra pelo significado, o autor a transforma em imagem. É por isso que a alternativa B é a correta. Se você pensar em interpretação de texto, o segredo é sempre perguntar: o autor está falando do sentido, da origem, do som ou do desenho das palavras? Aqui, ele está claramente explorando o desenho. Não há preocupação histórica nem etimológica, e muito menos com o significado literal de cada letra, porque letras, em si, não têm significado discursivo desse tipo. Em resumo: o texto é uma brincadeira visual com o alfabeto, construída para provocar humor pela semelhança entre o formato das letras e objetos do mundo real. É esse tipo de leitura que a FGV gosta de cobrar: perceber o mecanismo da graça, não só o conteúdo aparente.