Muitas frases omitem conectores. Assinale a frase em que o conector explicitado é adequado ao contexto.
- A)A abolição é a aurora da liberdade; emancipado o preto, resta emancipar o branco / A abolição é a aurora da liberdade; (depois de) emancipado o preto, resta emancipar o branco.
Certa: "depois de" recupera a ideia temporal implícita em "emancipado o preto", mantendo o sentido da frase original.
- B)Penso que o homem gordo não faz revolução. O abdome é naturalmente amigo da ordem; o estômago pode destruir um império, mas há de ser antes do jantar / Penso que o homem gordo não faz revolução, porém o abdome é naturalmente amigo da ordem; o estômago pode destruir um império, mas há de ser antes do jantar.
Errada: "porém" cria oposição, mas o trecho original apenas encadeia afirmações, sem contraste necessário entre elas.
- C)A descrença é fenômeno alheio à vontade do eleitor; a abstenção é propósito / A descrença é fenômeno alheio à vontade do eleitor à medida que a abstenção é propósito.
Errada: "à medida que" indica proporção ou simultaneidade progressiva, mas a frase pede uma relação diferente da apresentada.
- D)Pensar enlouquece. Pense nisso / Pensar enlouquece, mesmo que pense nisso.
Errada: "mesmo que" expressa concessão, mas a construção original não traz ideia concessiva entre pensar e enlouquecer.
- E)Software é a parte que você xinga... Hardware é a parte que você chuta / Software é a parte que você xinga embora hardware seja a parte que você chuta.
Errada: "embora" também marca concessão, e isso altera indevidamente o sentido humorístico e paralelo da frase original.
Gabarito: A
Esta questão cobra algo muito comum em sintaxe e coesão: a leitura do sentido que já está implícito na frase antes de sair enfiando um conector qualquer. Em textos literários ou ensaísticos, muitas vezes o autor corta o conector para dar ritmo, intensidade ou efeito estilístico. O que você precisa fazer é reconstruir a relação lógica entre as orações: causa, conclusão, oposição, tempo, condição, concessão etc. O ponto central aqui é perceber se o conector inserido combina com o sentido original. Às vezes o período só admite uma sequência temporal, e não uma oposição; em outras, a frase pede conclusão, e não concessão. FGV adora esse tipo de cobrança: ela oferece conectores que parecem bonitos no papel, mas que mudam a lógica da frase e estragam o sentido. Na alternativa A, o trecho "emancipado o preto" pede claramente ideia de tempo ou posterioridade: depois que o preto for emancipado, resta emancipar o branco. O conector explicitado "(depois de)" preserva exatamente essa relação temporal, sem forçar sentido estranho. Ou seja, a frase original e a reescrita com o conector mantêm o mesmo valor semântico. As demais alternativas trocam o tipo de relação lógica: colocam oposição, condição, concessão ou comparação onde o texto pede outra coisa. Em português de prova, isso é fatal. O segredo é simples: antes de olhar a gramática, pergunte "qual é a relação de sentido entre as partes?". Aqui, a resposta correta é a letra A porque o conector explicitado encaixa no contexto sem distorcer a mensagem.