Há dois textos de temática semelhante a seguir. Texto 1 – “Um mestre (Jesus) em que parece haver tanta autoridade, ainda que sua doutrina seja obscura, merece que seja crido por palavra... pode-se reconhecer sua autoridade, tendo em vista o respeito que lhe rendem Moisés e Elias; isto é, a lei e os profetas, como já expliquei... Não procuremos as razões das verdades que ele nos ensina: toda a razão, é que ele as falou.” Texto 2 – “Certas pessoas têm fé porque seus pais os ensinaram a crer. Num sentido, é satisfatório: nenhum axioma filosófico abalará essa fé; num outro sentido, é insatisfatório, porque sua fé não vem de conhecimento pessoal. Outros chegam à fé pela convicção após estudos. Isso é satisfatório num ponto: eles conhecem Deus por íntima convicção; por outro lado, é insatisfatório porque se outros lhes demonstram a falsidade de seu raciocínio, eles podem tornar-se descrentes.” Comparando os dois textos, é correto afirmar que:
- A)o texto 2 contraria o posicionamento do texto 1 em relação ao argumento de autoridade, pois só reconhece essa autoridade por meio de relações pessoais, e não pela fé;
Errada, porque o texto 2 não nega a autoridade por relações pessoais, mas discute formas de fé e seus limites, sem reduzir isso a um vínculo pessoal.
- B)os dois textos contrariam a validade absoluta dos argumentos de autoridade, pois podem ser desacreditados por demonstrações de sua pouca força;
Errada, porque os textos não rejeitam a autoridade absoluta de modo geral; o texto 1, inclusive, a valoriza explicitamente.
- C)o texto 1 condiciona a validade do argumento de autoridade desde que essa autoridade se tenha manifestado por meio de documentos;
Errada, porque o texto 1 não condiciona a autoridade a documentos, mas à própria fala e ao prestígio de quem ensina.
- D)os dois textos afirmam a validade absoluta dos argumentos de autoridade, desde que bem embasados;
Errada, porque nenhum dos textos afirma validade absoluta dos argumentos de autoridade em termos gerais, e o texto 2 justamente problematiza a segurança dessa base.
- E)o texto 2 mostra o perigo do argumento de autoridade e o risco do livre exame.
Certa, porque o texto 2 evidencia o risco de uma fé fundada só em autoridade/tradição e mostra como o livre exame pode levar à descrença se a base racional for frágil.
Gabarito: E
A questão trabalha a ideia de argumento de autoridade: quando alguém aceita uma afirmação não pelo exame direto das razões, mas porque confia em quem fala. No texto 1, a lógica é bem clara: a doutrina de Jesus merece crédito pela autoridade dele, e o próprio trecho diz para não buscar as razões das verdades ensinadas, mas crer porque ele as falou. Ou seja, a autoridade vem antes da prova racional, quase como um atalho da fé. Já o texto 2 mostra justamente o outro lado da moeda: há pessoas que acreditam por tradição familiar ou por estudos, mas essa fé pode ficar frágil se depender só de herança cultural ou de um raciocínio que depois possa ser desmontado. O texto aponta o risco de a crença ser sustentada por algo externo e não por convicção profunda, o que abre espaço para o chamado livre exame, isto é, a ideia de que a pessoa pode e deve avaliar por si mesma aquilo em que crê. Por isso, o gabarito é a letra E. O texto 2 evidencia o perigo de uma fé baseada em autoridade externa e também o risco do livre exame quando ele se torna um exame que abala a crença sem oferecer um fundamento interior sólido. Em outras palavras, o texto mostra que nem a autoridade sozinha nem a pura reflexão solta resolvem tudo: o problema é depender de uma base fraca para sustentar a fé. Em termos de prova, a FGV costuma cobrar bem essa diferença entre aceitar por autoridade e examinar criticamente as razões. Então, se o enunciado fala em autoridade, tradição, fé e fragilidade do conhecimento pessoal, você deve pensar: quem está sendo defendido e quem está sendo questionado?