Observe o seguinte segmento descritivo, inserido numa narrativa. “O campo ainda verde e vivo, mas parcialmente desfolhado e já quase deserto, oferecia a imagem da solidão e da proximidade do inverno. Brotava de seu aspecto uma mistura de impressão doce e triste análoga à minha idade e à minha sorte”. A função da descrição, nesse caso, é a de
- A)estabelecer uma analogia simbólica.
Certa: a descrição cria uma analogia simbólica entre a paisagem e o estado emocional e vital do narrador.
- B)defender um ponto de vista, utilizando a descrição como exemplo.
Errada: não há defesa de tese nem argumento exemplificando um ponto de vista; há valor expressivo e simbólico.
- C)utilizar a paisagem como oportunidade estética de valorizar o texto, apelando para metáforas.
Errada: embora haja beleza na linguagem, a função principal não é estética, mas de correspondência simbólica com a interioridade.
- D)indicar a semelhança existente entre a vida vegetal e a dos seres humanos, numa visão otimista dessas vidas.
Errada: o texto não apresenta uma visão otimista; ao contrário, ressalta solidão, tristeza e desgaste.
- E)mostrar, na natureza, aspectos que a valorizam como elemento decorativo.
Errada: a natureza não é tratada como mero adorno decorativo, mas como elemento carregado de significado.
Gabarito: A
Aqui a descrição não está só “decorando” a narrativa: ela conversa diretamente com o estado de espírito do narrador. O campo aparece “verde e vivo”, mas também “parcialmente desfolhado” e “quase deserto”, criando uma imagem que espelha solidão, passagem do tempo e aproximação do inverno. Em outras palavras, a paisagem funciona como reflexo simbólico da condição do eu narrativo. Esse é um recurso muito comum em textos literários: a natureza deixa de ser apenas cenário e passa a carregar sentido emocional ou existencial. A descrição, então, ganha função de analogia simbólica, porque o que se vê no campo corresponde, por semelhança, ao que se sente na vida interior do narrador. Por isso o gabarito é a letra A. A frase final fecha essa leitura com chave de ouro: a “mistura de impressão doce e triste” é dita como análoga à idade e à sorte do narrador, deixando explícita a relação simbólica entre paisagem e experiência humana.