Eis o início do discurso do deputado Ulysses Guimarães no lançamento da Constituição de 1988: “Senhoras e senhores constituintes. Dois de fevereiro de 1987. Ecoam nesta sala as reivindicações das ruas. A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. São palavras constantes do discurso de posse como presidente da Assembleia Nacional Constituinte. Hoje. 5 de outubro de 1988, no que tange à Constituição, a Nação mudou. (Aplausos). A Constituição mudou na sua elaboração, mudou na definição dos Poderes. Mudou restaurando a federação, mudou quando quer mudar o homem cidadão. E é só cidadão quem ganha justo e suficiente salário, lê e escreve, mora, tem hospital e remédio, lazer quando descansa. Num país de 30 milhões, 401 mil analfabetos, afrontosos 25 por cento da população, cabe advertir a cidadania começa com o alfabeto. Chegamos, esperamos a Constituição como um vigia espera a aurora. A Nação nos mandou executar um serviço. Nós o fizemos com amor, aplicação e sem medo”. Um manual clássico de Retórica dá uma série de conselhos para a construção de um bom discurso. Entre os conselhos a seguir, assinale aquele que é predominantemente seguido pelo orador.
- A)Na introdução do discurso deve-se apelar para uma declaração de impacto a fim de captar a benevolência e a curiosidade do público (captatio benevolentiae).
Errada, porque o trecho não se destaca por uma abertura de impacto para conquistar a simpatia do público, mas pela repetição enfática de ideias.
- B)Utilizar conectores lógicos para destacar a clareza e a solidez do raciocínio.
Errada, porque embora haja encadeamento lógico, o recurso mais visível não é a conexão argumentativa, e sim a repetição rítmica.
- C)Utilizar grande número de imagens para tocar o espírito do público: comparações, metáforas, hipérboles.
Errada, porque o texto não aposta principalmente em metáforas e imagens, mas em paralelismos e repetições de forte efeito oral.
- D)Empregar repetições, anáforas ou epístrofes, para martelar claramente uma ideia.
Certa, porque o discurso usa repetição e anáfora para martelar a ideia de mudança, dando ritmo, ênfase e força persuasiva.
- E)Interpelar o público para que ele se sinta ligado ao tema, por meio de apóstrofes, interjeições, questões retóricas e perífrases.
Errada, porque o texto não é marcado principalmente por interpelações ao público, mas por repetição estrutural de palavras e frases.
Gabarito: D
A questão explora recursos de retórica e, especialmente, de estilo na construção de um discurso persuasivo. Em peças oratórias, o autor pode usar apelos emocionais, imagens, vocativos e também figuras de repetição para fixar uma ideia na memória da plateia. Aqui, a banca quer que você perceba qual recurso aparece com mais força no trecho de Ulysses Guimarães. O ponto central do discurso é a repetição de estruturas semelhantes, sobretudo em sequências como “A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar.” e depois “Mudou na elaboração, mudou na definição dos Poderes. Mudou restaurando a federação...”. Isso é anáfora, isto é, repetição de palavras ou expressões no início de segmentos sucessivos, criando ritmo, ênfase e força argumentativa. Por isso o gabarito é a letra D. O orador não está apenas informando: ele está martelando uma ideia para dar cadência ao discurso e gravar a mensagem no ouvido de quem escuta. Em redação e retórica, repetição bem usada não é defeito, é ferramenta de persuasão. Como costuma dizer a doutrina de estilística, a repetição serve para intensificar o efeito expressivo e organizar o fluxo do pensamento do auditório. As outras alternativas até conversam com a retórica em geral, mas não representam o traço predominante do texto. O discurso tem vocativos e emoção, sim, mas o destaque mesmo está no paralelismo repetitivo, que dá o tom solene e memorável da fala.