Leia o fragmento a seguir. “Estamos na fase preliminar de uma das maiores batalhas da história (...) Que estamos em ação em muitos pontos — na Noruega e na Holanda — (...) que temos que estar preparados no Mediterrâneo. Que a batalha aérea é contínua, e que muitos preparativos têm que ser feitos aqui em casa. Eu diria à Câmara como disse àqueles que aderiram a este governo: "Não tenho nada a oferecer além de sangue, labuta, lágrimas e suor". Temos diante de nós uma provação do tipo mais grave. Temos diante de nós muitos, muitos longos meses de luta e de sofrimento. Você pergunta, qual é a nossa política? Direi: É travar uma guerra, pelo mar, terra e ar, com toda a nossa força e com toda a força que Deus pode nos dar; para travar uma guerra contra uma tirania monstruosa, nunca superada no catálogo sombrio e lamentável do crime humano. Essa é a nossa política. Você pergunta, qual é o nosso objetivo? Eu posso responder em uma palavra: Vitória. Vitória a todo custo — vitória apesar de todo o terror — Vitória, por mais longa e difícil que seja o caminho, pois sem vitória não há sobrevivência.” CHURCHILL, Winston, pronunciamento na Câmara dos Comuns do Parlamento Britânico, em 13 de maio de 1940. A seguir aparecem algumas observações sobre o discurso político; entre essas observações, assinale a que se relaciona mais diretamente a esse fragmento do discurso de Churchill, considerando exclusivamente esse segmento e sua situação de produção.
- A)O discurso apresenta uma tese exposta na primeira frase do texto e, da mesma forma, também tem um argumento que a apoia. Portanto, a afirmação que se pretende comunicar aos destinatários é defendida com fatos reais ou raciocínio plausível.
Errada, porque o trecho não se organiza como tese seguida de argumento, mas como convocação política e militar para a ação.
- B)A construção de um discurso tem um senso estratégico de ação, isto é, na exposição de sua ideia, existem objetivos definidos, modos ou maneiras claras de alcançá-los e antagonistas ou obstáculos que podem se apresentar como ameaças no campo de jogo.
Certa, porque descreve o discurso como ação estratégica com objetivo, caminho e adversário, exatamente o que o fragmento de Churchill apresenta.
- C)Nesse tipo de fala, o receptor está em uma posição em que deve decidir e tomar uma posição em relação a eventos passados, ocorrendo um provável julgamento do desempenho dos líderes.
Errada, porque o texto não trata de julgamento de desempenho de líderes em relação a fatos passados, e sim de mobilização diante de uma guerra em curso.
- D)O discurso político nesses casos concentra-se em demonstrar que ações precisas e necessárias foram tomadas no desenvolvimento da gestão, abordando meios de subsistência suficientes e, além de convincente, garantindo que a coisa certa foi feita sobre uma questão transcendental e futura.
Errada, porque não há foco em mostrar medidas já tomadas na gestão ou em justificar resultados administrativos, mas em convocar para a luta futura.
- E)É uma ferramenta essencial para os atores políticos, pois é usada por eles para expressar sua maneira de ver certos problemas, vincular os ouvintes aos seus ideais, gerar perguntas sobre o exercício do poder ou criar esperança para quem recebe a mensagem.
Errada, porque é uma definição genérica da linguagem política e não a observação mais diretamente ligada à estrutura estratégica e bélica do fragmento.
Gabarito: B
Aqui a FGV quer que você identifique a função e a lógica do discurso político no contexto concreto em que ele foi feito. O fragmento de Churchill não está preocupado em narrar fatos passados nem em fazer prestação de contas; ele serve para mobilizar, definir objetivo e marcar o adversário. Repare como o texto organiza a fala como uma ação estratégica: apresenta a situação de guerra, aponta obstáculos reais e conclama a audiência para um propósito bem claro, a vitória. Por isso, a ideia central ligada ao trecho é a de discurso como instrumento de ação política. Ele tem um fim definido, constrói um caminho para esse fim e identifica o inimigo ou a ameaça. Em termos de teoria do discurso, isso conversa com a função persuasiva e mobilizadora da linguagem, muito comum em pronunciamentos parlamentares e de guerra. O gabarito é a letra B porque ela descreve exatamente essa dimensão estratégica: objetivos definidos, meios para alcançá-los e antagonistas ou obstáculos no cenário. Churchill faz isso de modo muito explícito ao dizer que a política é travar guerra com toda a força e que o objetivo é a vitória. É discurso de combate, não de balanço administrativo. Então, se você ler a fala com atenção, vai notar que ela não quer apenas informar. Ela quer organizar a ação coletiva, criar adesão e preparar os ouvintes para um esforço prolongado. É a retórica em modo de guerra, com aquela energia de quem diz: "não há plano B, vamos em frente".