“E da minha fidelidade não se deveria duvidar; pois, tendo-a sempre observado, não devo aprender a rompê-la agora; e quem foi fiel e bom por quarenta e três anos, como eu, não deve poder mudar de natureza: da minha fidelidade e da minha bondade é testemunha a minha pobreza.” Nesse pensamento, o autor utiliza os adjetivos “fiel e bom” e, em seguida, os substantivos correspondentes “fidelidade” e “bondade”. A opção abaixo em que os dois adjetivos citados mostram substantivos adequados é:
- A)sensato e esperto / sensatez e espertez;
Errada: "sensatez" é correto, mas "espertez" não é forma padrão; o substantivo usual é "esperteza".
- B)claro e escuro / clareza e escureza;
Errada: "clareza" está certo, porém "escureza" não é o substantivo consagrado, e sim "escuridão".
- C)alto e gordo / altura e magrura;
Errada: "altura" e "gordura" são formas corretas, mas "magrura" não é o derivado usual; o esperado seria "magreza".
- D)fundo e profundo / fundeza e profundeza;
Certa: "fundo" e "profundo" admitem os substantivos "fundeza" e "profundeza", que exprimem a qualidade correspondente.
- E)liso e áspero / lisibilidade e asperidade.
Errada: "asperidade" é correto, mas "lisibilidade" não corresponde a "liso"; o substantivo habitual é "lisura".
Gabarito: D
Nesta questão, a banca cobra um ponto clássico de morfologia: a passagem do adjetivo para o substantivo abstrato, isto é, a palavra que nomeia qualidade, estado ou característica. Em geral, isso acontece por derivação sufixal, como em "fiel" -> "fidelidade" e "bom" -> "bondade". O segredo é reconhecer se o substantivo realmente existe e se corresponde ao sentido do adjetivo. A alternativa D é a correta porque "fundo" e "profundo" formam, respectivamente, os substantivos "fundeza" e "profundeza", ambos usados para indicar a qualidade de ser fundo ou profundo. Aqui não há invenção: os derivados existem no padrão da língua, e o par adjetivo-substantivo está semanticamente coerente. As demais alternativas escorregam em um detalhe muito típico de prova: ou trazem um substantivo inexistente, ou trocam o sufixo usual por outro inadequado. A FGV gosta justamente dessa armadilha, porque ela testa vocabulário e formação de palavras ao mesmo tempo, sem depender de regra decorada. Na prática, você precisa pensar: "esse substantivo soa natural em português?". Então, quando aparecer um par de adjetivos seguido de dois substantivos, compare não só o significado, mas também a forma lexical consagrada. Em morfologia, nem tudo que parece bonito existe de verdade na língua. Às vezes a banca cria um termo para ver se você compra a ideia no impulso.