Uma das marcas da textualidade é a coerência. Entre as frases abaixo, assinale aquela que se mostra incoerente.
- A)O caminho que desce e o caminho que sobe são os mesmos.
É paradoxal, mas coerente: a frase brinca com a ideia de que subir e descer podem ser vistos como o mesmo trajeto em sentidos opostos.
- B)Há coisas que são tão sérias, que você tem que rir delas.
É uma construção irônica e coerente, porque o absurdo aparente serve para reforçar a ideia de que certas coisas sérias merecem tratamento humorado.
- C)Se o mundo fosse bom, o dono morava nele.
É uma frase de humor e raciocínio indireto, com coerência interna no contraste entre um mundo ideal e a figura do “dono”.
- D)Eu não creio em Deus, mas tenho medo dele.
É a incoerente: há choque entre negar a crença em Deus e, ao mesmo tempo, atribuir medo a Ele, o que rompe a continuidade de sentido.
- E)O problema com as crianças é que elas não são retornáveis.
É coerente no tom de humor: a frase faz um trocadilho com a ideia de devolução, aplicada às crianças de modo figurado.
Gabarito: D
Coerência é a costura do sentido: as partes do texto precisam conversar entre si, mesmo quando há humor, ironia ou paradoxo. Em prova, a banca adora frases que parecem “estranhas”, mas ainda fazem sentido no plano expressivo. Nem todo enunciado fora do comum é incoerente; às vezes ele é apenas irônico, provocativo ou paradoxal. Nas alternativas da questão, várias frases brincam com a lógica para produzir efeito de sentido. Isso não derruba a coerência, porque o leitor consegue reconstruir a intenção: há uma ideia por trás da quebra aparente da lógica. O texto continua inteligível, ainda que não seja literal. O problema da letra D é que há um choque mais forte entre as ideias: se a pessoa afirma que não crê em Deus, a sequência “mas tenho medo dele” fica semanticamente tensionada, porque o pronome “dele” retoma justamente aquilo cuja existência foi negada. Falta uma ponte interpretativa mais clara para unir as duas partes da frase. Por isso, ela é a alternativa incoerente cobrada pela FGV. Em resumo: coerência não é “obedecer à lógica do dicionário” de modo rígido, mas manter uma linha de sentido possível. Quando a frase quebra essa linha sem gerar um efeito interpretável, aí sim nasce a incoerência.