O discurso de Getúlio Vargas no dia 1º de maio de 1951 pode não ter mudado o mundo, mas certamente alterou o rumo do Brasil. À frente de um estádio de São Januário (RJ) lotado, o então presidente do país fez sua homenagem aos trabalhadores do Brasil, enfatizando suas políticas públicas de regularização do trabalho. O início desse discurso diz: “Trabalhadores do Brasil, Depois de quase 6 anos de afastamento, durante os quais nunca me saíram do pensamento a imagem e a lembrança do grato e longo convívio que mantive convosco, eis-me outra vez aqui ao vosso lado, para falar com a familiaridade amiga de outros tempos, e para dizer que voltei a fim de defender os interesses mais legítimos do povo, e promover as medidas indispensáveis ao bem-estar dos trabalhadores. Esta festa de 1º de maio tem para mim e para vós, uma expressão simbólica: é o primeiro dia de encontro entre os trabalhadores e o novo governo. E é com profunda emoção que retorno ao vosso convívio nesse ambiente de regozijo e festa nacional. Em que nos revemos uns aos outros a céu aberto e em que o governo fala ao povo de amigo para amigo na linguagem simples, leal e fraca que sempre lhes falei. Nas horas de glória e de triunfo, assim como nas de sofrimento e de perseguições, os trabalhadores foram sempre fiéis, desinteressados e valorosos. E posso repetir hoje, de coração, o que mais de uma vez proclamei: os trabalhadores nunca me decepcionaram. Nunca se aproximaram de mim para pleitear interesses particulares ou favores pessoais. Pleitearam sempre para a coletividade a que pertencem, pelo reconhecimento dos seus direitos, pela melhoria das suas condições de vida, pelas reivindicações da classe e pelo bem-estar dos seus semelhantes”. A estratégia discursiva que foi empregada predominantemente nesse segmento do discurso de Getúlio Vargas, é
- A)apelar para uma declaração inicial inesperada em função da situação em que é proferido o discurso.
Errada, porque o trecho não surpreende pela declaração inicial, mas pela aproximação direta com o público.
- B)utilizar, como diz o próprio orador, uma linguagem de registro popular a fim de que todos os ouvintes possam compreendê-lo.
Errada, embora o orador mencione uma linguagem simples, a estratégia predominante é a inclusão do auditório por marcas pronominais.
- C)inserir o público na fala do discurso por meio de referências pronominais.
Certa, porque o texto insere o público na fala por meio de vocativos e referências pronominais como 'convosco', 'vosso' e 'vós'.
- D)apresentar imediatamente a tese do discurso, seguida de um exemplo concreto que permite a ancoragem na realidade.
Errada, pois não há apresentação de tese seguida de exemplo concreto; há construção de vínculo com os ouvintes.
- E)elogiar, sem justificativas, a classe dos trabalhadores, opondo-a implicitamente às demais classes.
Errada, porque o trecho não se limita a elogiar os trabalhadores, mas cria interação direta com eles e com o grupo social a que pertencem.
Gabarito: C
A questão explora uma estratégia clássica de discurso: incluir o público dentro da fala para criar proximidade e adesão. Em vez de falar de forma fria e distante, o orador vai costurando a mensagem com marcas de interlocução, como vocativos e pronomes que aproximam quem fala de quem ouve. Isso é muito comum em discursos políticos, que adoram transformar plateia em parte ativa da cena, quase como se a fala estivesse sendo construída a várias mãos. No trecho, Getúlio Vargas não fala apenas sobre os trabalhadores, ele fala diretamente com eles: “Trabalhadores do Brasil”, “convosco”, “vosso lado”, “vós”, “vosso convívio”. Essas referências pronominais e formas de tratamento inserem o público no texto e criam um efeito de diálogo, de comunhão entre orador e audiência. É esse o ponto central da estratégia discursiva. Por isso, o gabarito é a letra C. A banca quer que você perceba o mecanismo de coesão e de interlocução, não apenas o conteúdo político da fala. O texto não está só informando ou elogiando: ele está construindo uma relação direta com o auditório, o que dá força persuasiva ao discurso. Em prova, desconfie quando o enunciado mostrar um trecho cheio de pronomes de segunda pessoa, vocativos e marcas de proximidade. Isso costuma indicar uma estratégia de envolvimento do destinatário, muito usada para gerar empatia e legitimar o que está sendo dito.