Leia com atenção o texto abaixo, de Théophile Gautier: “É também absurdo afirmar que um homem é um alcoólatra porque ele descreve uma orgia, um debochado porque ele relata um deboche e que um homem é virtuoso porque ele é o autor de um livro de moral: todos os dias presenciamos o contrário. – É o personagem que fala e não o autor; seu herói é ateu, o que não quer dizer que ele seja ateu; ele faz agir e falar alguns bandidos e não é por isso que ele deva ser um bandido. Nesse sentido, deveríamos guilhotinar Shakespeare, Corneille e todos os trágicos porque cometeram milhares de assassinatos”. Sobre esse pequeno texto argumentativo, assinale a afirmativa correta.
- A)O início do texto alude ao emprego de um “argumento pelo absurdo” ao referir-se à relação entre descrever uma orgia e ser um alcoólatra.
Errada, porque o texto não usa o começo como argumento pelo absurdo; ele apenas apresenta exemplos para mostrar que a autoria de um tema não implica prática daquele comportamento.
- B)O texto defende a tese de que os que escrevem sobre determinados temas devem ter experiência sobre esses temas.
Errada, porque o texto defende justamente o contrário: escrever sobre algo não significa ter vivência ou ser adepto disso.
- C)O texto pressupõe uma futura argumentação contrária à tese que o autor defende.
Errada, porque o trecho não pressupõe uma futura refutação; ele já constrói sua própria defesa contra a tese contrária.
- D)O último argumento do texto pode ser classificado como “argumento pelo absurdo”.
Certa, porque o fechamento exagera a lógica adversária até o ponto do absurdo, mostrando que a conclusão seria ridícula.
- E)O autor do texto faz a separação clara entre autor e personagem porque os dois nunca mostram nada em comum.
Errada, porque o texto separa autor e personagem, mas não diz que eles nunca têm nada em comum; apenas afirma que não devem ser confundidos.
Gabarito: D
O texto trabalha com uma ideia central muito comum em questões de interpretação: não se deve confundir o autor com a voz do personagem. Ou seja, quem escreve pode criar um narrador, um herói ou um vilão com ideias e atitudes totalmente diferentes das suas. Isso aparece de forma bem clara quando o autor diz que o personagem fala, e não o autor. O foco, portanto, está na separação entre a obra e a pessoa que a escreveu. Repare também no fecho do trecho: dizer que seria necessário "guilhotinar Shakespeare, Corneille e todos os trágicos porque cometeram milhares de assassinatos" é um raciocínio exagerado, levado ao extremo para mostrar o absurdo da conclusão oposta. Isso é exatamente o que se chama argumento pelo absurdo: o autor leva a tese contrária até uma consequência ridícula para provar que ela não se sustenta. É uma estratégia argumentativa clássica, muito usada para desmontar generalizações apressadas. Por isso, o gabarito é a letra D. O último argumento funciona como uma reductio ad absurdum, isto é, um raciocínio que mostra o absurdo de uma posição ao empurrá-la para suas consequências ilógicas. Aqui, se alguém dissesse que todo escritor responde moralmente por tudo o que seus personagens fazem, então até tragédias literárias virariam prova de crime real. A conclusão é tão exagerada que denuncia a falha da tese contrária. Em prova de concurso, fique atento: a banca gosta de testar se você percebe a diferença entre autor, narrador e personagem, e também se identifica recursos argumentativos como o argumento pelo absurdo. Não é o escritor que vira alcoólatra por descrever uma orgia, nem bandido por criar bandidos. Literatura não é ficha policial.