“Acabo de ler o trecho a seguir num livro de História: ‘Os cristãos tinham uma moral, mas os pagãos, não’. Ah! Senhor autor desta obra: onde o senhor aprendeu essa tolice? O que dizer da moral de Sócrates, de Cícero, de Marco Antônio e de tantos outros? Leitor: reflita e tire suas conclusões.” A afirmativa inadequada sobre esse depoimento a respeito da leitura de uma obra histórica é:
- A)o argumentador do texto mostra sua presença desde a primeira linha por meio da desinência verbal da forma “acabo”;
Certa: a forma verbal “acabo” revela a presença do enunciador desde o início, marcando subjetividade e posição no texto.
- B)o adversário argumentativo que o argumentador deseja refutar está identificado pela expressão “Senhor autor desta obra”;
Certa: “Senhor autor desta obra” identifica claramente o alvo da refutação, isto é, o adversário argumentativo.
- C)a palavra “tolice” serve de qualificação da tese adversária;
Certa: “tolice” é uma avaliação negativa da tese do outro, funcionando como qualificação depreciativa da ideia atacada.
- D)o leitor, que é visto como árbitro do debate, é invocado na última frase do texto;
Certa: o leitor é chamado a participar no final, sendo colocado como quem deve avaliar o debate e concluir.
- E)o argumentador julga a tese apresentada, mas não expõe argumentos que a contradigam.
Errada: o texto não se limita a julgar a tese, pois apresenta contraexemplos e perguntas retóricas que contradizem diretamente a afirmação discutida.
Gabarito: E
A questão cobra leitura argumentativa: quem fala no texto não está só narrando, mas tomando posição e tentando convencer o leitor. Repare no tom de confronto logo no início, com perguntas retóricas e interpelação direta ao “Senhor autor desta obra”. Isso já mostra um enunciador presente, crítico e disposto a desmontar a tese que leu. O texto também tem estratégia de refutação. Em vez de apenas dizer “discordo”, o argumentador lança exemplos históricos - Sócrates, Cícero, Marco Antônio - para enfraquecer a afirmação de que os pagãos não tinham moral. Ou seja, ele não fica só no julgamento; ele apresenta elementos para contradizer a tese adversária. No fim, o “Leitor: reflita e tire suas conclusões” funciona como convocação do destinatário para participar do debate. Esse tipo de recurso é típico de textos argumentativos: o autor chama o leitor para o papel de juiz da discussão, reforçando o caráter persuasivo do discurso. Por isso, a afirmação inadequada é a que diz que o argumentador julga a tese, mas não expõe argumentos que a contradigam. Isso está errado porque o texto traz, sim, contraexemplos históricos e perguntas retóricas com clara função de refutação. Em termos de teoria da argumentação, há tese, contra-tese e marcas explícitas de persuasão.