“O campo ainda estava verde e alegre, mas quase deserto e com as árvores parcialmente desfolhadas, oferecendo a imagem da solidão e da aproximação do inverno. Resultava de seu aspecto uma mistura de uma impressão doce e triste, análoga à da minha idade”. Nesse fragmento introdutório de um romance, a função da descrição é
- A)narrativa, informando ao leitor sobre personagens, lugares e objetos do espaço narrativo, permitindo uma projeção mais fácil no interior da história narrada.
Errada: a descricao nao esta apenas informando o espaco narrativo; ela transmite sobretudo um estado emocional associado ao narrador/personagem.
- B)estética, em que a descrição serve de exposição das virtudes estilísticas do narrador.
Errada: nao se trata de exibir virtuosismo de estilo, mas de construir uma correspondencia afetiva entre paisagem e sentimento.
- C)simbólica, em que a descrição faz alusão a alguma outra coisa que está implícita.
Errada: ha sugestao simbolica de inverno e solidao, mas a funcao central do trecho e expressar uma impressao subjetiva, nao apenas aludir indiretamente a outra coisa.
- D)argumentativa, em que a descrição expressa um ponto de vista do autor ou a utiliza como argumento.
Errada: o trecho nao esta sendo usado para defender um ponto de vista do autor nem como argumento; a descricao tem valor expressivo e afetivo.
- E)sentimental, quando nas narrativas de focalização interna, ou seja, feita a partir da imaginação de um personagem, expressa estados de alma particulares.
Certa: a paisagem e filtrada pela percepcao subjetiva e traduz um estado de alma, caracterizando descricao sentimental em focalizacao interna.
Gabarito: E
Aqui a banca quer que voce perceba a funcao da descricao dentro do romance. Nem toda descricao serve so para “mostrar o cenario”; muitas vezes ela funciona como espelho do estado emocional de quem narra ou focaliza. Quando isso acontece, a paisagem deixa de ser neutra e passa a carregar sentimento, quase como se o mundo externo acompanhasse a alma do personagem. No trecho, o campo aparece “verde e alegre”, mas ao mesmo tempo “quase deserto” e “parcialmente desfolhado”, criando uma atmosfera de solidão e de inverno chegando. Em seguida, o narrador amarra tudo isso a uma vivencia interna: “uma mistura de uma impressão doce e triste, análoga à da minha idade”. Ou seja, a paisagem não é descrita apenas para localizar a cena, mas para refletir um estado de alma. Por isso, o gabarito é a letra E. Essa é a chamada descricao sentimental ou psicológica, muito comum em narrativas de focalizacao interna, quando o espaco ganha cor emocional por meio do olhar do personagem ou do narrador. Em termos doutrinarios, a descricao deixa de ser puramente objetiva e passa a subjetivar a cena, algo bem explorado pela teoria da narrativa e pela estilistica literaria. Em resumo: se a paisagem parece sentir junto com o personagem, desconfie de descricao sentimental. A banca adora esse truque: ela coloca um cenario bonito, mas o que importa mesmo e o clima interior que ele traduz.