Em uma de suas crônicas, Rubem Braga tece os seguintes comentários sobre o padre Feijó, figura importante de nossa história: “...quanta mediocridade, quanta incoerência! Não era homem excepcional nem pela inteligência nem pela cultura. Não teve, diante dos problemas do Brasil, nenhuma visão mais larga nem penetrante; não nos legou, nem mesmo aos homens do Segundo Império, nenhuma ideia mais alta ou mais justa para levar adiante. Teimoso e limitado, tinha dois ou três projetos que defendeu até a velhice, e nenhum deles de maior mérito”. Temos aqui o exemplo de um argumento ad hominem, ou seja, uma argumentação crítica contra uma pessoa. O tipo de argumento ad hominem que é adequado ao texto de Rubem Braga é aquele que:
- A)repousa sobre uma incoerência ou inconsistência de ordem formal: a incompatibilidade ou a contradição lógica entre diferentes elementos argumentativos;
Errada, porque trata de incoerência formal entre elementos do argumento, e não de ataque direto à pessoa.
- B)consiste em colocar em discussão a posição mantida por uma pessoa em virtude de traços de sua personalidade nas suas relações sociais;
Errada, porque fala em traços da personalidade nas relações sociais, mas a ideia central aqui é desqualificar a pessoa pelas suas marcas negativas, não discutir sua vida social.
- C)não procura desacreditar uma ideia em função de um aspecto negativo da pessoa que a formula, mas se prende diretamente a marcas negativas da própria pessoa;
Certa, porque descreve o ataque dirigido diretamente à pessoa, usando características negativas dela para desmerecer sua posição.
- D)marca a reprovação de alguém por ter mudado de ideia, mudando de política geral ou de partido político;
Errada, porque se refere a mudança de ideia, de política ou de partido, o que não é o caso do texto.
- E)pretende destacar a contradição entre o dizer e o fazer, tendo um comportamento incompatível com o discurso que apresenta.
Errada, porque trata da contradição entre discurso e comportamento, isto é, do "faça o que eu digo, não o que eu faço", e isso não é o foco do trecho.
Gabarito: C
Aqui o ponto central é perceber que nem todo ataque à pessoa é igual. O argumento ad hominem, em sentido amplo, é aquele que tenta enfraquecer uma ideia ou posição atacando quem a defende, em vez de responder ao conteúdo do argumento. Em provas, a FGV gosta de cobrar essa diferença fina entre criticar a tese e criticar a pessoa por algum defeito, incoerência ou característica pessoal. No trecho, Rubem Braga não discute só se o padre Feijó estava certo ou errado em alguma proposta. Ele pinta o personagem como medíocre, incoerente, teimoso e limitado, isto é, usa traços negativos do próprio indivíduo para desqualificá-lo. Esse é o ad hominem que mira diretamente a pessoa, e não a consistência lógica da tese. Por isso, o gabarito é a letra C: ela descreve exatamente a estratégia de não atacar a ideia em si, mas se prender a marcas negativas da pessoa que a formula. Em termos didáticos, é o famoso "não gosto da ideia porque quem a diz é ruim". A argumentação fica personalista, e não propriamente racional sobre o mérito da proposta. Só para não confundir: isso é diferente de apontar contradição lógica interna do discurso, ou de cobrar incoerência entre discurso e prática. A FGV adora essa casca de banana, então vale guardar a regra de ouro: se o foco é a pessoa, pense em ad hominem; se o foco é a estrutura do argumento, pense em incoerência lógica.