Um estudante e um professor, que haviam marcado uma reunião de estudos após as aulas, se encontram no corredor e travam o seguinte diálogo: - Estudante: Oi, Paulo, você vai estar no seu gabinete amanhã às três horas, não é? - Professor: Bom, não sei... - Estudante: Mas, o senhor... (se afasta, contrariado) Sobre essa conversação, é correto afirmar que:
- A)o estudante mostra não dominar o uso correto da língua, ao misturar os tratamentos “você” e “senhor”;
Errada, porque misturar "você" e "senhor" não significa, por si só, descontrole da norma, já que a alternância pode ocorrer por efeito de contexto e de relação social.
- B)o emprego de “você” na primeira frase do estudante mostra descortesia, já que se trata de um professor, a quem se deve dirigir um tratamento respeitoso;
Errada, porque o uso de "você" não é necessariamente descortês; ele pode ser aceitável dependendo da situação comunicativa e do grau de proximidade.
- C)o tratamento de “senhor” mostra um distanciamento em relação ao professor, em função da situação criada;
Certa, porque "senhor" marca distanciamento e formalidade em relação ao professor, em função da situação criada no diálogo.
- D)as reticências ao final da fala do professor indicam que algo não foi registrado no texto;
Errada, porque as reticências na fala do professor sugerem hesitação, suspensão do pensamento ou reserva, não ausência de registro do texto.
- E)as reticências ao final da segunda fala do estudante indicam dúvida sobre o que pensar.
Errada, porque as reticências na fala do estudante indicam interrupção, hesitação ou contrariedade na fala, e não necessariamente dúvida sobre o que pensar.
Gabarito: C
Nesta questão, o ponto central é o uso dos pronomes de tratamento e o efeito de sentido que eles produzem no contexto. Em português, o tratamento não é só regra gramatical: ele também mostra distância, respeito, intimidade ou formalidade. Por isso, a escolha entre "você" e "senhor" depende da relação entre os interlocutores e da situação de fala. No diálogo, o estudante começa com "você", mas em seguida o professor responde de forma hesitante, e o estudante muda de registro: "Mas, o senhor...". Essa troca não indica erro de língua, e sim uma reação ao contexto, como se o estudante percebesse uma barreira hierárquica ou um incômodo na conversa. Ou seja, o pronome "senhor" sinaliza maior distanciamento e respeito formal naquele momento. É por isso que o gabarito é a letra C. O emprego de "senhor" não é prova de frieza sem motivo, mas de afastamento em relação ao professor, provocado pela situação criada no diálogo. Em provas da FGV, é comum ela cobrar exatamente isso: o valor discursivo do tratamento, não apenas a forma "certa" ou "errada". Vale lembrar: no português brasileiro, "você" pode ser perfeitamente adequado em muitas situações, inclusive entre aluno e professor, dependendo do grau de familiaridade e do contexto institucional. Já "senhor" tende a marcar maior formalidade e distância. Aqui, a mudança de tratamento funciona como pista de interpretação, não como simples questão de etiqueta.