Num julgamento determinado, o advogado de defesa disse o seguinte: “O réu, que aqui está sendo julgado por homicídio, sempre foi, senhores jurados, um ótimo pai de família e chegou a diretor da associação de moradores de seu bairro...” A argumentação do advogado, nesse caso, mostra um problema de formulação, que é identificado como:
- A)uma falsa analogia foi estabelecida;
Errada: não há comparação entre dois casos ou situações para sustentar a conclusão, então não se trata de falsa analogia.
- B)as afirmações feitas se apoiam em opiniões pessoais;
Errada: o problema não é o uso de opinião pessoal, mas sim o desvio do assunto central da defesa.
- C)a falta de lógica nos dados apresentados;
Errada: pode até haver fragilidade argumentativa, mas a identificação mais precisa é o abandono da questão principal, e não uma simples falta de lógica nos dados.
- D)uma generalização foi formulada;
Errada: não se trata de generalização a partir de casos particulares, mas de um deslocamento do foco da argumentação.
- E)a questão principal é abandonada por digressão.
Certa: o advogado deixa de enfrentar a acusação de homicídio e passa a destacar qualidades pessoais do réu, o que caracteriza digressão.
Gabarito: E
Aqui o ponto central é a coerência da argumentação: quem está defendendo alguém num julgamento precisa enfrentar a acusação de frente. Quando o advogado começa a falar que o réu é bom pai e líder comunitário, ele até tenta criar simpatia, mas sai do núcleo do problema, que é o homicídio imputado ao acusado. Isso é um desvio do foco argumentativo. Na teoria da redação e da argumentação, esse tipo de movimento é chamado de digressão: o discurso abandona a questão principal para trazer informações laterais, que podem até ser verdadeiras, mas não respondem ao ponto decisivo. Em concurso, a banca adora essa troca de foco, porque parece “bonito” falar bem do réu, mas isso não prova que ele não cometeu o crime. Perceba a armadilha: ser um ótimo pai ou presidente de associação de moradores pode até melhorar a imagem moral da pessoa, mas não serve, por si só, como defesa lógica contra a imputação de homicídio. É argumento emocional, não enfrentamento técnico da acusação. Por isso, o gabarito é a letra E. A questão principal foi abandonada por digressão, isto é, houve desvio do tema central em vez de uma resposta direta ao que realmente importava no julgamento.