Um teólogo russo, V. S. Soloviev, declarou: “Sinto vergonha, logo existo”. A afirmação INADEQUADA sobre essa frase:
- A)é parte de um silogismo em que falta a conclusão;
Errada, porque a frase não é um silogismo incompleto com conclusão ausente; ela já funciona como conclusão e não apresenta as duas premissas.
- B)mostra intertextualidade com uma frase famosa;
Certa, pois há intertextualidade com a fórmula famosa de Descartes, recriada na estrutura e no efeito de sentido.
- C)emite uma opinião pessoal do seu autor;
Certa, porque a frase expressa uma posição subjetiva do autor, marcada pela experiência pessoal da vergonha.
- D)exemplifica um texto de caráter argumentativo;
Certa, já que o enunciado busca sustentar uma ideia por meio de uma formulação de efeito argumentativo e reflexivo.
- E)não traz as duas premissas de um silogismo.
Certa, porque não aparecem as duas premissas típicas de um silogismo; há apenas uma afirmação com cara de conclusão.
Gabarito: A
A frase de Soloviev tem cara de jogo de lógica com roupa de literatura: ela junta uma sensação íntima (“sinto vergonha”) com uma conclusão existencial (“logo existo”), lembrando a famosa construção cartesiana “Penso, logo existo”. Isso é intertextualidade, porque um texto conversa com outro, às vezes citando diretamente, às vezes recriando a forma ou a ideia. Aqui, a estrutura imita um raciocínio conhecido para produzir efeito de sentido, não para montar um silogismo completo e certinho. Em lógica tradicional, um silogismo tem duas premissas e uma conclusão. Por exemplo: “Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal”. Na frase dada, não aparecem duas premissas articuladas desse jeito. O que há é uma afirmação subjetiva, com valor expressivo, que funciona como enunciado argumentativo e literário ao mesmo tempo. Por isso, a alternativa A é a inadequada: ela diz que a frase seria parte de um silogismo em que falta a conclusão, mas o que falta mesmo são as duas premissas. A frase já traz a conclusão pronta, e ainda por cima em tom de aforismo, não de demonstração lógica formal. É o tipo de pegadinha clássica da FGV: trocar a estrutura lógica por uma aparência de raciocínio.