Leia o texto a seguir. Ibrahim, dono de um boteco, de uma feita, num fim de tarde, com alguns fregueses presentes, fez o filho subir ao balcão, e a um metro de distância chamou por ele. — Filhinha da babai! Pula daí no colo da babai! O guri, confiante, saltava do balcão para os braços do Ibrahim. Uma, duas, três vezes, o mesmo lance. No quarto lance, o Ibrahim quebrou o corpo e o guri se esborrachou no chão de tijolos. E abriu o peito como um desesperado. Não faltaram resmungos de “barbaridade!” por parte dos que assistiam ao episódio. Agachando-se, passando a mão na cabeça da cria, o Ibrahim sentenciou: — É pra ocê não confiar em ninguém, meu filhinha querida. Nem na sua babaizinha. Home nenhum bresta neste mundo… RILLO, Aparício da Silva. Rapa de tacho 2. Porto Alegre: Tchê, p. 121. [Adaptado]. A frase que singulariza a fala de português em contato com outra língua é:
- A)Não faltaram resmungos de “barbaridade!” por parte dos que assistiam ao episódio.
Errada, porque registra apenas uma interjeição popular (“barbaridade!”) sem traço claro de contato com outra língua.
- B)No quarto lance, o Ibrahim quebrou o corpo e o guri se esborrachou no chão de tijolos.
Errada, porque traz narrativa em português comum, sem marca linguística específica de interferência estrangeira.
- C)O guri, confiante, saltava do balcão para os braços do Ibrahim.
Errada, porque também é apenas descrição narrativa em português padrão, sem singularização por outra língua.
- D)— É pra ocê não confiar em ninguém, meu filhinha querida.
Certa, porque a fala de Ibrahim apresenta marcas de oralidade e interferência lexical/fonética de outra língua, caracterizando o português em contato linguístico.
- E)Agachando-se, passando a mão na cabeça da cria, o Ibrahim sentenciou.
Errada, porque é uma fala de enunciação narrativa, não a frase que traz a marca mais evidente de contato com outra língua.
Gabarito: D
Esta questão trabalha a ideia de variação linguística e, mais especificamente, de fala em contato com outra língua. Em textos literários, o autor costuma reproduzir a oralidade para marcar identidade cultural, sotaque, origem social ou regional do personagem. Não se trata de “erro” no sentido escolar, mas de um recurso expressivo: a fala é construída para parecer viva e caracterizar quem fala. No trecho, Ibrahim é um personagem cuja fala traz marcas de interferência linguística, isto é, traços de outra língua misturados ao português. Isso aparece quando ele diz “babai” e “ocê”, criando uma fala que soa estrangeira e popular ao mesmo tempo. A palavra “babai” é a pista mais forte, porque foge do português-padrão e reforça esse contato com outra língua, além de dar cor cultural ao personagem. Por isso, a alternativa D é a correta: ela contém a frase em que a fala do personagem é singularizada por esse contato linguístico. Em questões da FEPESE, vale ficar atento a isso: a banca gosta de testar se você diferencia variedade linguística de erro gramatical. Aqui, o objetivo não é corrigir a fala, mas perceber o efeito de sentido criado por ela. Em resumo: a resposta certa é a que apresenta a fala marcada pela oralidade e pela interferência de outra língua, elemento típico de caracterização literária e sociolinguística.