O direito à literatura Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos de folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações. Vista deste modo, a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado. O sonho assegura durante o sono a presença indispensável deste universo, independente da nossa vontade. E durante a vigília, a criação ficcional ou poética, que é a mola da literatura em todos os seus níveis e modalidades, está presente em cada um de nós, analfabeto ou erudito – como anedota, causo, história em quadrinhos, noticiário policial, canção popular, moda de viola, samba carnavalesco. Ela se manifesta desde o devaneio amoroso ou econômico no ônibus até a atenção fixada na novela de televisão ou na leitura seguida de um romance. Ora, se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo a que me referi parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito. (CÂNDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: ______________. Vários escritos. 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Duas Cidades, 1995. p. 169-191. Fragmento.) Analisando-se o texto como um todo e sua estruturação em parágrafos, é correto afirmar que:
- A)Ao lermos o último parágrafo, entendemos que nem todos precisam sonhar e mergulhar no universo da ficção e da poesia.
Errada: o último parágrafo não nega a necessidade de sonhar e de mergulhar na ficção, ao contrário, afirma justamente essa universalidade.
- B)O título não condiz com o que é dito no corpo do texto, já que o assunto principal são as diversas manifestações culturais e literárias existentes.
Errada: o título combina perfeitamente com o texto, que defende o direito à literatura como necessidade humana e social.
- C)O segundo parágrafo não se relaciona com o primeiro de modo claro, já que o primeiro versa sobre cultura e literatura e o segundo, sobre sonhos.
Errada: o segundo parágrafo se relaciona claramente com o primeiro, pois desenvolve a ideia de literatura como manifestação universal presente na vida cotidiana.
- D)Como um parágrafo deve sempre, de modo explícito, fazer menção e continuar o que vinha antes, o terceiro parágrafo peca em coesão por abandonar o tema do sonho e se centrar em ficção e poesia.
Errada: o terceiro parágrafo não abandona o tema, mas retoma a ideia de ficção e poesia para concluir que a literatura é um direito.
- E)Os dois últimos parágrafos estão coesos e coerentes em relação ao primeiro, pois explicitam os motivos pelos quais o autor considera a literatura uma necessidade universal e, por isso, um direito de todos.
Certa: os parágrafos finais retomam e aprofundam o primeiro, mostrando por que a literatura é uma necessidade universal e, portanto, um direito de todos.
Gabarito: E
Neste texto, Antonio Candido constrói uma ideia central com bastante clareza: a literatura não é enfeite, mas uma necessidade humana universal. Primeiro, ele amplia o conceito de literatura para abarcar desde o folclore e a lenda até formas mais sofisticadas da escrita, mostrando que ela está presente em todas as culturas e em todos os níveis sociais. Depois, ele faz a ligação lógica entre vida humana e ficção: assim como todo mundo sonha, todo mundo também precisa, em algum grau, entrar em contato com o universo fabuloso durante a vigília. Ou seja, o autor não muda de assunto do nada; ele aprofunda o argumento iniciado no primeiro parágrafo. No terceiro parágrafo, Candido fecha o raciocínio com uma conclusão forte: se essa relação com ficção e poesia é inevitável e universal, então a literatura responde a uma necessidade de todos e, por isso, deve ser entendida como um direito. É exatamente essa progressão de ideias que torna o texto coeso e coerente. Por isso, o gabarito é a letra E. Os dois últimos parágrafos não se afastam do primeiro, mas o desenvolvem e concluem, seguindo uma linha argumentativa bem amarrada. A leitura fica redonda: conceito amplo de literatura, demonstração de sua universalidade e conclusão sobre seu valor como direito.