Leia o fragmento do poema de Carlos Drummond de Andrade: O bonde passa cheio de pernas Pernas brancas pretas amarelas Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração Porém meus olhos Não perguntam nada Na linguagem literária é frequente o emprego das figuras de linguagem. Nos dois primeiros versos do trecho destacado anteriormente, podemos observar que o poeta modernista emprega com maestria a figura que:
- A)Indica uma relação com o todo, de um termo em lugar de outro.
Certa, porque há metonímia/sinédoque: uma parte do corpo é usada para representar as pessoas no bonde.
- B)Estabelece a aproximação de palavras que têm o sentido oposto.
Errada, porque não há oposição de sentidos entre as palavras, mas substituição por relação de sentido.
- C)Remete à comparação implícita, em que a conotação sobrepõe a denotação
Errada, porque não se trata de comparação implícita, e sim de troca de um termo por outro associado a ele.
- D)Utiliza uma expressão menos rude em lugar de outra que provocaria sentido desagradável.
Errada, porque não há suavização de expressão ofensiva, mas uso figurado de uma parte pelo todo.
Gabarito: A
Neste trecho, o poeta chama os passageiros do bonde de "pernas". Perceba que ele não está falando literalmente das pernas, mas das pessoas como um todo, destacando uma parte para representar o conjunto. Isso é muito comum na linguagem literária: em vez de nomear diretamente, o autor escolhe uma imagem mais expressiva e rápida, que dá ritmo e força ao verso. Essa figura de linguagem é a metonímia, e, mais especificamente, a sinédoque, quando uma parte representa o todo. Quando Drummond escreve "O bonde passa cheio de pernas" e depois "Pernas brancas pretas amarelas", ele cria essa substituição para mostrar a multidão no bonde de forma visual e quase cinematográfica. Por isso o gabarito A está correto: há uma relação de contiguidade, em que um termo ocupa o lugar de outro ligado a ele pelo sentido. Na tradição gramatical e literária, isso aparece como metonímia/sinédoque, muito cobrada em prova quando a banca quer saber se você percebeu a troca de nome sem cair no literal. Resumo de prova: se a palavra usada não é a ideia principal, mas uma parte, marca, efeito ou elemento associado a ela, desconfie de metonímia. Aqui, "pernas" não são só pernas: são as pessoas no bonde, tudo em movimento.