— Voei ao Recife, no Cais Pousei na Rua da Aurora. — Aurora da minha vida Que os anos não trazem mais! — Os anos não, nem os dias, Que isso cabe às cotovias. Manuel Bandeira. Cotovia. In: Manuel Bandeira. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1990, p. 298. Nas práticas de leitura em sala de aula, um texto como o fragmento poético precedente é propício para o estudo da
- A)oralidade, por ser esse um texto da cultura popular, escrito em linguagem informal e espontânea.
Errada, porque o fragmento é poema literário, não exemplo de oralidade nem de cultura popular espontânea.
- B)ambiguidade, já que o fragmento em exame é um texto lírico que explora o sentido figurado incerto e sugestivo das palavras.
Errada, porque o foco não é a ambiguidade vocabular, e sim o diálogo do poema com a tradição literária.
- C)intertextualidade, uma vez que o trecho retoma versos da tradição lírica brasileira e lhes atribui um sentido novo em contexto diferente.
Certa, pois o trecho retoma elementos da lírica brasileira e lhes dá novo sentido em outro contexto.
- D)semântica, dada a variação de sentidos da maior parte das palavras do fragmento, cujo significado textual não é de fácil compreensão.
Errada, porque a dificuldade de compreensão de palavras não é o centro da questão; o tema é a relação entre textos.
- E)variação linguística, pois o fragmento traz marcas da variedade linguística regional nordestina.
Errada, porque o poema não se destaca por marcas de variedade regional nordestina, mas por um diálogo intertextual.
Gabarito: C
Este fragmento de Manuel Bandeira é um ótimo exemplo de texto que conversa com outros textos. Quando um poema retoma ecos, formas, versos, temas ou referências já conhecidos da tradição literária, temos intertextualidade. Em sala de aula, esse tipo de leitura ajuda você a perceber que o texto não nasce isolado: ele dialoga com outros discursos, com a memória cultural e com a tradição poética. No trecho, a voz poética brinca com a ideia de "aurora" e com o tom lírico ligado à passagem do tempo, tema muito frequente na poesia. O efeito não está em definir uma fala popular, nem em marcar regionalismo, mas em reutilizar elementos da lírica brasileira para produzir um sentido novo, em outro contexto. Isso é justamente o coração da intertextualidade. A banca CESPE/CEBRASPE gosta muito de cobrar leitura fina do texto: em vez de você olhar só para uma palavra solta, ela quer que você perceba a relação entre o fragmento e a tradição literária. É por isso que o gabarito é a alternativa C: o poema retoma uma herança lírica conhecida e a reorganiza poeticamente, criando um novo efeito de sentido. Em termos de teoria textual, intertextualidade é a relação de um texto com outros textos anteriores ou contemporâneos, seja por citação, alusão, paródia, paráfrase ou retomada temática. Aqui, o ponto central é essa retomada transformada, e não uma análise de vocabulário isolado.