Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. Luís de Camões. In: Massaud Moisés. A literatura portuguesa através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1968. p. 85. Assinale a opção que apresenta a figura de linguagem presente em todos os versos da estrofe do poema apresentado.
- A)hipérbole
Errada, porque hipérbole é exagero, mas o efeito predominante nos versos é a oposição entre ideias contrárias.
- B)eufemismo
Errada, porque eufemismo ameniza uma ideia desagradável, e aqui o poeta intensifica o contraste, não suaviza a expressão.
- C)antítese
Certa, porque a estrofe aproxima termos opostos para criar contraste e expressar a contradição do amor.
- D)alegoria
Errada, porque alegoria é uma representação mais ampla e simbólica, enquanto aqui há uma figura pontual de oposição entre palavras e ideias.
- E)ironia
Errada, porque ironia depende de dizer algo com intenção de sentido contrário ao literal, o que não é o caso predominante nesses versos.
Gabarito: C
Esta estrofe de Camões trabalha com contrastes diretos para falar do amor de modo paradoxal. Repare como aparecem pares opostos em sequência: "fogo" e "se ver", "ferida" e "não se sente", "contentamento" e "descontente", "doer" e "desatina sem doer". Esse choque de ideias cria tensão e dá força poética ao texto. A figura de linguagem central aqui é a antítese, que consiste justamente na aproximação de palavras ou ideias de sentido contrário. Em prova, a banca costuma cobrar esse ponto de forma bem objetiva: se o verso junta termos opostos para produzir efeito expressivo, a resposta tende a ser antítese. No poema, o amor é apresentado como algo contraditório, ao mesmo tempo prazer e dor, presença e ausência, sentir e não sentir. Isso combina perfeitamente com a tradição lírica de Camões, que gosta de explorar conflitos internos e emoções ambíguas. Por isso, a opção C está correta. Não é exagero puro, nem suavização, nem narrativa simbólica completa, nem simples sarcasmo: o núcleo do verso é a oposição de sentidos. É aquele tipo de amor que, na poesia, parece brigar consigo mesmo o tempo todo.