O Brasil ocupa a sexta posição mundial de produção de produtos e insumos químicos e petroquímicos, demandando uma movimentação intensa de mercadorias perigosas pelo modo rodoviário, o mais usado e a preferencial forma de transporte do país. Salienta-se que a Bahia é um dos principais corredores de transporte rodoviário de produtos perigosos do Brasil e do Mercosul. A exigência de um fluxo intenso desses materiais por suas rodovias propicia às populações limítrofes, aos trabalhadores que lidam diretamente com esses materiais e ao ambiente uma exposição contínua aos perigos e riscos das suas propriedades intrínsecas, bem como aos passivos socioambientais, caso ocorram eventos de trânsito cuja abrangência ultrapasse os limites espaço-temporais, com sérios danos e prejuízos para o Estado e a sociedade. Considerando que no caso de derramamento petrolífero, diversos processos agem sobre os diferentes componentes do petróleo, mudando substancialmente as suas características físicas e químicas, são ações observadas em caso de derramamento, EXCETO:
- A)Biodegradação: ocorre quando a maioria dos óleos crus não afundam sozinhos na água do mar devido à sua densidade ser menor que a da água. Por isso é necessária a união com outras partículas para que o petróleo sedimente. Uma vez sedimentado, os processos de degradação do óleo são drasticamente reduzidos. Este processo é intensificado nas primeiras quatro semanas que seguem o derramamento. Os componentes mais pesados do petróleo são adsorvidos por partículas inorgânicas, podendo aderir também a sólidos flutuantes, tendendo a sofrer sedimentação no fundo marinho.
Errada, porque a descrição não corresponde à biodegradação, e sim à sedimentação/adsorção de frações pesadas do petróleo em partículas.
- B)Dissolução: passagem de parte dos hidrocarbonetos ao estado de solução com a coluna d’água. A taxa com a qual isso ocorre depende de alguns fatores, como composição do óleo, espalhamento da mancha, temperatura e turbulência da água e da taxa de dispersão. Componentes pesados do óleo cru não se solubilizam, ao passo que os mais leves (como benzeno e tolueno) têm maior solubilidade (cerca de 5 ppm) em água. Este processo é iniciado logo após o derrame e se perpetua ao longo do tempo, uma vez que oxidação e biodegradação são fenômenos físico-químicos que ocorrem com o petróleo quando derramado na água.
Certa quanto ao fenômeno descrito, pois a dissolução ocorre quando parte dos hidrocarbonetos passa para a coluna d'água.
- C)Dispersão vertical: processo físico em que as gotículas de óleo são transportadas a partir da superfície do mar para a coluna de água, sobretudo devido à rebentação das ondas; isso ocorre quando toda a pluma ou parte dela é quebrada, formando essas gotículas que, por sua vez, podem ter dimensões variáveis, sendo que as menores não voltam à superfície devido à turbulência natural da água, difundindo-se na coluna de água. A taxa da dispersão natural depende do tipo de óleo e da ação das ondas, sendo maior para óleos de baixa viscosidade e em ambiente de quebra de ondas.
Certa quanto ao fenômeno descrito, pois a dispersão vertical leva gotículas de óleo da superfície para a coluna de água pela ação das ondas.
- D)Espalhamento: é um dos processos mais relevantes nos primeiros momentos após um derrame. É determinado pelas condições climáticas e oceânicas, assim como por outros processos como evaporação, dissolução, dependendo, também, do tipo de óleo derramado. O espalhamento determina a extensão em área da superfície da mancha, sendo resultado da difusão turbulenta e do balanço entre as forças de gravidade, inércia, viscosidade e tensão superficial. O grau de espalhamento é primordial para planejamento e eficácia de estratégias de resposta a derrames, pois, quanto maior o grau de espalhamento, maior a dificuldade de contenção para posterior recolhimento do óleo.
Certa quanto ao fenômeno descrito, pois o espalhamento é um dos primeiros processos após o derrame e amplia a área da mancha.
- E)Evaporação: processo de mudança de fase de líquido para vapor das substâncias mais leves ou mais voláteis do petróleo, quando elas sedimentam na superfície da água. Esse processo deixa no ambiente aquático os componentes mais pesados do óleo, que sofrerão outros processos de envelhecimento ou decantarão rumo ao substrato oceânico. Produtos refinados, como gasolina e querosene, tendem a evaporar em poucas horas, causando um dano mínimo ao ambiente aquático. Óleos pesados e óleos vegetais deixam resíduos mais espessos e viscosos. Esses tipos de óleo possuem menor tendência à evaporação. Dependendo das condições do óleo, do derrame, do clima e do oceano e do tempo considerado, uma porcentagem relevante do óleo derramado pode ser retirada do ambiente aquático por evaporação.
Certa quanto ao fenômeno descrito, pois a evaporação remove as frações mais leves e voláteis do petróleo para a atmosfera.
Gabarito: A
Em derramamentos de petróleo, o óleo não fica parado: ele sofre uma sequência de processos físico-químicos e biológicos que mudam sua aparência, sua composição e até a forma como ele se espalha no ambiente. Entre os principais estão espalhamento, evaporação, dissolução, dispersão, emulsificação, oxidação, biodegradação e sedimentação. Parece uma bagunça, e de fato é, porque cada etapa altera a mancha de um jeito diferente. A questão pede a ação que não é observada como descrita no caso do derramamento. O erro da alternativa A está no rótulo: o texto fala em "biodegradação", mas descreve na verdade a sedimentação e a adsorção de frações pesadas do óleo por partículas, processo que ocorre quando o petróleo se associa a sólidos e vai para o fundo. Isso não é biodegradação, que depende da ação de microrganismos degradando o hidrocarboneto. Na prática, a biodegradação acontece principalmente com compostos mais leves e em condições ambientais adequadas, sendo mais eficiente nas fases iniciais e em áreas com oxigênio e nutrientes. Já a sedimentação é o que o enunciado narra: o óleo, sobretudo a fração mais pesada, adere a partículas e pode afundar, reduzindo sua degradação. Em outras palavras, a banca trocou o nome do processo por outro, e é aí que mora a pegadinha. Do ponto de vista técnico, a literatura sobre resposta a derramamentos de óleo separa claramente esses mecanismos de intemperismo do petróleo. Em gestão ambiental, entender essa diferença é importante porque a estratégia de contenção e recuperação muda conforme o processo predominante.