Leia o seguinte fragmento do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis: “Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembroume reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.” Grande parte desse fragmento é destinada à descrição da casa onde vive o narrador. Essa descrição tem função
- A)estética, pois se destina a suscitar e emoção do leitor.
Errada, porque a descrição não busca principalmente emocionar pelo belo, mas revelar o mundo interno do narrador.
- B)simbólica, pois evoca emoções, estados de alma do personagem.
Certa, porque a casa e seus objetos funcionam como símbolos do estado de alma, da memória e do isolamento do narrador.
- C)documental, pois dá à narrativa uma dimensão pedagógica.
Errada, porque o trecho não tem finalidade pedagógica nem pretende ensinar algo de modo documental.
- D)referencial, pois situa o ambiente da ação.
Errada, porque não se trata apenas de situar o ambiente da ação, mas de atribuir sentido emocional e psicológico ao espaço.
- E)avaliadora, pois mostra a valorização dos objetos descritos.
Errada, porque não há foco em julgamento ou valorização dos objetos descritos, mas em seu valor expressivo e simbólico.
Gabarito: B
Na literatura, a descrição de um espaço nunca é só "cenário por cenário". Muitas vezes ela ajuda a revelar o estado interior do narrador, o clima emocional da narrativa e até os sentidos escondidos do texto. Em Machado de Assis, isso aparece com frequência: o ambiente material conversa com a psique da personagem, como se a casa também pensasse junto com ele. No fragmento de Dom Casmurro, o narrador descreve a casa reproduzida no Engenho Novo, mas essa descrição não serve apenas para localizar a ação. Ela funciona como um espelho do sujeito: a casa antiga e a nova, o gosto pela repetição, os objetos velhos e o contraste entre vida interior pacata e vida exterior ruidosa sugerem memórias, melancolia, apego ao passado e isolamento. Ou seja, o espaço ganha valor simbólico. Por isso, o gabarito é a letra B. A descrição da casa evoca muito mais do que um endereço: ela traduz emoções, lembranças e o mundo íntimo do narrador. Em Machado, esse tipo de construção é muito típico do Realismo, que explora com cuidado a psicologia das personagens e a relação entre aparência e verdade interior. Se a banca perguntar isso de novo, pense assim: quando o espaço descrito ajuda a representar sentimentos, memória, identidade ou conflito interno, a função tende a ser simbólica. Quando é só para situar o leitor no lugar da ação, aí sim você pensaria em função referencial.