Esse segmento de texto foi escrito em 1930 – o primeiro romance de Rachel de Queiroz. “Encostado a uma jurema seca, defronte ao juazeiro que a foice dos cabras ia pouco a pouco mutilando. Vicente dirigia a distribuição de rama verde ao gado. Reses magras, com grandes ossos agudos furando o couro das ancas, devoravam confiadamente os rebentões que a ponta dos terçados espalhava pelo chão. Era raro e alarmante, em março, ainda se tratar de gado. Vicente pensava seriamente no que seria de tanta rês, se de fato não viesse o inverno. [....] O compadre já soube que a dona Maroca das Aroeiras deu ordem pra, se não chover até o dia de São José, abrir as porteiras do curral? E o pessoal dela que ganhe o mundo... Não tem mais serviço pra ninguém.” Literariamente considerado, a afirmação adequada sobre ele é:
- A)filia-se à segunda geração modernista por sua temática regionalista e de preocupação social.
Certa: o romance integra a segunda geração modernista, com regionalismo e crítica social voltados ao drama da seca nordestina.
- B)enquadra-se no regionalismo romântico, pela idealização da paisagem nordestina.
Errada: não há idealização da paisagem, mas sim sua dureza e degradação.
- C)indica um posicionamento linguístico de liberdade modernista diante das regras opressivas da norma culta.
Errada: embora haja linguagem simples e coloquial, o ponto central não é a ruptura linguística, e sim a temática social e regional.
- D)mostra uma visão puramente objetiva da realidade representada, aderindo a uma posição literária realista.
Errada: o texto não busca neutralidade objetiva realista; ele envolve denúncia e perspectiva social marcada.
- E)demonstra a preocupação de registrar vocábulos e ações próprias da região nordestina, valorizando-a cultural e esteticamente.
Errada: a valorização regional aparece, mas a classificação mais precisa é a do Modernismo de 1930, com foco social, e não apenas um registro etnográfico.
Gabarito: A
O trecho é de "O Quinze", de Rachel de Queiroz, publicado em 1930, obra que costuma ser lida como marco da segunda geração modernista, especialmente pela força do regionalismo e pela atenção aos dramas sociais do Nordeste. Aqui, o foco não é enfeitar a paisagem, mas mostrar a seca, a escassez e seus efeitos concretos sobre pessoas e animais. É aquele regionalismo que não posa para a foto: ele mostra a dureza da vida e faz isso com linguagem simples, direta e cheia de marcas do ambiente retratado. Perceba que a cena gira em torno da estiagem, do gado magro, da preocupação com a chuva e da ameaça de perda total. Isso tudo conversa com o projeto modernista de ampliar o olhar para o Brasil real, sobretudo o interior nordestino, com suas tensões sociais. A literatura aqui não idealiza a miséria nem transforma a paisagem em cartão-postal; ela evidencia a realidade humana diante da seca. Por isso, a alternativa A está correta: o texto se filia à segunda geração modernista pela temática regionalista e pela preocupação social. Rachel de Queiroz faz exatamente esse movimento: trata de um espaço regional específico, mas com valor universal, porque fala de sobrevivência, abandono e desigualdade. O romance de 1930 entra nesse momento em que o Modernismo assume um tom mais crítico e social. As demais alternativas tentam encaixar o trecho em escolas inadequadas. Não há idealização romântica, nem mera descrição objetiva típica do Realismo, nem destaque principal para liberdade linguística como fim em si. O centro do texto é a denúncia humana da seca, com forte valor social e regional.