Assinale o segmento que, por suas características linguísticas, pertence ao escritor Mário de Andrade.
- A)Que milagres de esperteza e de economia não realizou ele nessa construção! Servia de pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava pedra; pedra, que o velhaco, fora de horas, junto com a amiga, furtava à pedreira do fundo, da mesma forma que subtraiam o material das casas em obra que havia por ali perto.
Está errada porque o tom é mais descritivo e narrativo, com linguagem mais tradicional, sem a marca modernista de invenção verbal típica de Mário de Andrade.
- B)HAMLET observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
Está errada porque remete claramente a Machado de Assis, com citação a Hamlet, cartomante e ironia metalinguística.
- C)Nunca mais que o cabriolé de Seu Lula enchesse as estradas com a música de suas campainhas. A família do Santa Fé não ia mais à missa aos domingos. A princípio correra que era doença no velho. Depois inventaram que o carro não podia mais rodar, de podre que estava.
Está errada porque o trecho tem forte marca regionalista e memorialista, mais próxima do romance de ciclo nordestino do que do experimentalismo de Mário de Andrade.
- D)Esta imensa campina, que se dilata por horizontes infindos, é o sertão de minha terra natal. Aí campeia o destemido vaqueiro cearense, que à unha de cavalo acossa o touro indômito no cerrado mais espesso, e o derriba pela cauda com admirável destreza.
Está errada porque a linguagem é solene, descritiva e idealizante, com aparência mais próxima do romantismo ou do regionalismo clássico.
- E)Foram. A margem estava traiçoeira e nem se achava bem o que era terra o que era rio entre as mamoranas copadas. Maanape e Jiguê procuravam enlameados até os dentes, degringolando juque! nos barreiros ocultos pela inundação.
Está correta porque apresenta oralidade, brasilidade, invenção lexical e ritmo modernista, traços muito característicos de Mário de Andrade.
Gabarito: E
Para acertar esse tipo de questão, você precisa reconhecer o “sotaque literário” de cada autor. A banca não quer saber só o enredo, mas a marca de linguagem: vocabulário, ritmo, sintaxe e até a cara da época literária. Em Mário de Andrade, isso costuma aparecer no Modernismo: mistura de oralidade, brasilidade, inventividade verbal, frases menos solenes e um gosto por romper com a linguagem engomada do passado. O trecho da alternativa E entrega isso rapidinho: “Maanape e Jiguê”, “degringolando juque!”, “barreiros”, “inundação”, tudo com forte sabor de língua brasileira popular, além de ritmo ágil e imagens que lembram o universo de Macunaíma. Há aí a tentativa modernista de capturar a fala e o imaginário nacional sem vestir terno e gravata do português clássico. Já o ponto central é este: Mário de Andrade é um dos nomes mais marcantes do Modernismo brasileiro, movimento que, após a Semana de 1922, valorizou ruptura, experimentação e nacionalização da linguagem. Em obras como Macunaíma, ele mistura registros, cria expressões e trabalha a língua como matéria viva, não como peça de museu. Então, quando você vir linguagem inventiva, coloquial, com marcas fortes de brasilidade e desvio da norma tradicional, pense em Mário de Andrade. A alternativa E é correta justamente porque o estilo do fragmento combina com esse projeto modernista.