Assinale o segmento narrativo abaixo que exemplificaria o que se chama um romance histórico.
- A)A noite estava singularmente escura, a hora deserta. Meu motor roncava. Os faróis empurravam diante deles o dia sem vida e parado.
Errada, porque traz uma cena atmosférica e subjetiva, sem referência a um contexto histórico reconhecível.
- B)A passeata se arrastava pelo centro da cidade, com pessoas de todas as classes. Na beira das calçadas muitos militares do Exército estavam com os olhos da ditadura sobre elas.
Certa, porque situa a narrativa em um cenário histórico e político identificável, com marca forte de época.
- C)Casa e jardim estão vivos ainda, eu sei, mas de que importa, se a magia os deixou, se está perdido o segredo de um mundo de que eu deixei de ser digno?
Errada, porque é um trecho de tom lírico e introspectivo, sem caráter narrativo histórico.
- D)O acidente ocorreu no cruzamento de ruas importantes, na região dos Jardins, mas a polícia demorou duas horas para chegar. Durante esse tempo, os proprietários dos carros que se tinham chocado discutiam sem parar.
Errada, porque apresenta um fato urbano contemporâneo, sem reconstrução de passado histórico.
- E)O sequestro da vereadora ocorreu no início da noite. A polícia desconfiou de problemas com o tráfico de drogas, mas, durante a semana o caso foi ficando mais claro, envolvendo problemas de influência política.
Errada, porque descreve um caso policial atual, com foco jornalístico, e não um ambiente histórico de ficção.
Gabarito: B
Romance histórico é aquele que mistura ficção com um cenário do passado, geralmente ligado a fatos, conflitos ou atmosfera de uma época real. Ele não precisa copiar a História como um livro didático, mas precisa fazer o leitor sentir que está entrando em um momento histórico reconhecível, com contexto social e político bem marcado. Na prática, a chave é esta: há uma narrativa ficcional, mas o pano de fundo é histórico, e esse pano de fundo não é decorativo. A época influencia o enredo, os personagens e os conflitos. Em termos de teoria literária, o romance histórico nasce dessa fusão entre imaginação e reconstrução de um tempo passado, como se a literatura colocasse roupas de época sem virar museu. No item B, a menção à passeata, às classes sociais e aos militares com os olhos da ditadura aponta claramente para um ambiente histórico específico, ligado ao regime autoritário no Brasil. Ou seja, o trecho não mostra só um acontecimento isolado: ele situa a ação num contexto político real e identificável, o que é típico do romance histórico. As demais alternativas trazem situações contemporâneas, intimistas ou descritivas, mas sem essa reconstrução de um período histórico marcado. A banca da FGV costuma cobrar exatamente essa sensibilidade de leitura: perceber se o texto apenas narra um fato ou se ele ancora a ficção em uma época histórica concreta.