Assinale o segmento que pertence à obra, de estilo muito particular, do escritor modernista João Guimarães Rosa.
- A)“O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.”
Errada: o trecho é de Euclides da Cunha, com linguagem analítica e descritiva de caráter sociológico, não com a invenção verbal de Guimarães Rosa.
- B)“Esta imensa campina, que se dilata por horizontes infindos, é o sertão de minha terra natal. Aí campeia o destemido vaqueiro cearense, que à unha de cavalo acossa o touro indômito no cerrado mais espesso, e o derriba pela cauda com admirável destreza. Aí, ao morrer do dia, reboa entre os mugidos das reses, a voz saudosa e plangente do rapaz que abóia o gado para o recolher aos currais no tempo da ferra. Quando te tomarei a ver, sertão da minha terra, que atravessei há muitos anos na aurora serena e feliz da minha infância?”
Errada: o texto tem tom épico e descritivo ligado ao regionalismo de José de Alencar, bem distante do estilo modernista rosiano.
- C)“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.”
Errada: o excerto é de Graciliano Ramos, com prosa seca, objetiva e realista, sem a experimentação linguística típica de Rosa.
- D)“Viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa... O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”
Certa: o trecho traz oralidade, reflexão existencial e forte elaboração da linguagem, marcas centrais da obra de João Guimarães Rosa.
- E)“— Chá... tchá... chá... tchá. Era um pássaro madrugador que anunciava a antemanhã, primeiro que o galo-de-campina, que toda a orquestração das matinas. Um xexéu desgracioso, cor das barreiras enferrujadas, a que os escravos davam caça, a bodoque , nos dias de folga, porque — regulador que não se atrasa — lhes marcava, pontualmente , o início das tarefas diárias. O feitor, como ainda chamam a esse arauto importuno, pegava no estribilho temporão, tirando do sono a cabroeira extenuada, como contratado pelo senhor rural: chá... tchá...”
Errada: o fragmento tem traço memorialista e regional, mas não apresenta a densidade vocabular e a construção sintática própria de Guimarães Rosa.
Gabarito: D
João Guimarães Rosa é um dos grandes nomes do Modernismo brasileiro, especialmente da 3ª fase, e ficou famoso por reinventar a linguagem literária ao retratar o sertão com invenção vocabular, oralidade e profundidade filosófica. Em vez de só narrar fatos, ele faz a língua “andar no barro”, criando ritmo próprio, palavras inesperadas e frases que parecem falar e pensar ao mesmo tempo. A questão pede justamente um trecho com esse estilo muito particular. Em Guimarães Rosa, o sertão não é só cenário: ele vira experiência humana, com tensão existencial, reflexão sobre a vida e uma linguagem que mistura simplicidade, poesia e estranhamento. A marca dele não é o regionalismo descritivo seco, mas a recriação artística da fala sertaneja. O item D é o correto porque traz exatamente esse tom rosiano: frases de forte carga filosófica, repetições com ritmo oral, abstrações ligadas à vida e ao sertão, e construções que soam como pensamento em movimento. Expressões como “viver é muito perigoso” e “ir até o rabo da palavra” são muito compatíveis com a inventividade de Rosa, que transforma a linguagem em matéria literária. Como comparação, as demais alternativas remetem a outros autores do regionalismo ou do pré-modernismo, com linguagem mais descritiva e documental. Ou seja: se o texto parece ter sido “temperado” com invenção verbal e reflexão existencial, você está no território rosiano. Em concurso, essa assinatura costuma ser o grande farol para não confundir regionalismo comum com Guimarães Rosa.