“Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda arte e a toda natureza? Boa razão é também essa. O estilo há de ser muito fácil e muito natural. Por isso, Cristo comparou o pregar ao semear. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte. Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi ele? O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o Céu. Suposto que o Céu é pregador, deve ter sermões e deve ter palavras. E quais são estes sermões e estas palavras do Céu? As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. O pregar há de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, de outra há de estar negro; se de uma parte está dia, de outra há de estar noite? Se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a Palavra de Deus”. O texto acima é um excerto do famoso “Sermão da Sexagésima”, do Padre Antônio Vieira, orador sacro do século XVII, pertencente as literaturas portuguesa e brasileira. Nesse momento do sermão, o orador questiona se o estilo da época é uma das causas da dificuldade de os sermões convencerem religiosamente o público. Sobre o texto e suas relações literárias, assinale a afirmativa correta.
- A)O orador mescla sua preocupação religiosa com a estética barroca, fazendo de seus sermões a expressão máxima do Barroco em prosa sacra e um dos principais meios de difusão da ideologia e da literatura da Contrarreforma.
Certa: Vieira é um dos máximos representantes da prosa sacra barroca, e seus sermões articulam estética barroca e propaganda religiosa da Contrarreforma.
- B)Como é comum nos sermões, o pregador faz uso de perguntas que ele não responde, recurso que permite provocar a reflexão e estimular o raciocínio lógico do ouvinte.
Errada: as perguntas retóricas em Vieira não servem só para “estimular o raciocínio”, mas para conduzir a argumentação e reforçar a persuasão do sermão.
- C)O sermão desenvolve a temática religiosa e, ao mesmo tempo, predomina nele uma das características do estilo barroco: o conceptismo, visto que sua principal preocupação é a estética da expressão.
Errada: o Barroco aparece aqui, mas a preocupação principal não é a estética pela estética; o foco é persuadir religiosamente, não exibir forma.
- D)O segmento “Se de uma parte está branco, de outra há de estar negro; se de uma parte está dia, de outra há de estar noite? Se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu” se refere ao paradoxo, um exemplo de figura de linguagem.
Errada: o trecho exemplifica sobretudo antíteses e paralelismos, e não apenas paradoxo; além disso, a alternativa simplifica demais a figura de linguagem.
- E)No primeiro parágrafo, o orador faz alusão a uma comparação feita por Jesus em suas palavras, aludindo ao método de pregar de Jesus, que consistia em utilizar correspondências de difícil compreensão, para que seu discurso só fosse assimilado e compreendido após profunda meditação.
Errada: Jesus é citado como modelo de simplicidade e clareza, justamente o contrário de um discurso difícil e rebuscado.
Gabarito: A
O trecho é de um sermão de Padre Antônio Vieira, um dos grandes nomes do Barroco luso-brasileiro. Em Vieira, a forma de pregar nunca é só “beleza de palavras”: ela serve para convencer, discutir moral e mover a plateia, em sintonia com a Contrarreforma, que valorizava a eloquência religiosa como instrumento de catequese e persuasão. No “Sermão da Sexagésima”, Vieira critica os pregadores que exageram no estilo e se afastam da mensagem essencial do Evangelho. O texto é barroco porque trabalha com contraste, antíteses, paralelismos e raciocínio engenhoso, mas a finalidade é espiritual e persuasiva. Em outras palavras: há arte, mas a arte está a serviço da fé. Por isso, a alternativa A está correta: ela reconhece que os sermões de Vieira unem preocupação religiosa e estética barroca, funcionando como prosa sacra barroca e como veículo da ideologia da Contrarreforma. Isso é bem típico do Barroco: tensão entre forma e conteúdo, entre razão e fé, entre aparência e verdade. Se você quiser uma chave rápida para memorizar: Vieira é barroco, mas não é enfeite vazio. Ele usa a retórica para convencer, denunciar e conduzir o ouvinte à reflexão religiosa.